Deivison fez o que muitos desenvolvedores pensam mas nunca executam: pegou um SaaS famoso que usa na própria empresa, abriu no navegador e pediu ao Claude para clonar, botão por botão, parâmetro por parâmetro. O experimento gerou mais de 50 mil visualizações no Twitter e abriu um debate intenso sobre IA, direito autoral e o futuro do desenvolvimento de software.
O experimento que parou o Twitter
Tudo começou com um problema real: a empresa de Deivison usa há anos um software de gestão famoso, mas o suporte do fornecedor é péssimo. Com mais de 50 colaboradores usando o sistema no dia a dia, qualquer problema vira uma dor de cabeça sem resposta rápida. A ideia de desenvolver um substituto interno volta e meia, mas nunca avança, porque criar um software do zero é, como ele diz, "mais um filho para criar".
A virada de chave veio de outro experimento: Deivison havia construído um bot de atendimento interno usando o Claude. Para treinar o bot, ele usou uma extensão do Chrome para fazer o Claude passar tela por tela do software e entender cada funcionalidade. Na semana seguinte, o pensamento surgiu naturalmente: e se eu fizesse a mesma coisa, mas para clonar o software inteiro?
Como funciona o processo de clonagem com IA
O processo foi conduzido em duas grandes etapas: análise e desenvolvimento.
Na fase de análise, Deivison abriu o software no navegador e pediu ao Claude para percorrer cada tela, anotar cada parâmetro, cada botão e cada comportamento. Não foi uma varredura automática: ele foi fazendo perguntas direcionadas ao longo do caminho.
- Você entendeu o módulo de cadastros? Volte e analise de novo.
- O que ainda falta para entender esse software a fundo?
- Analise a API do software para entender as regras de negócio.
Além das telas, Deivison forneceu ao Claude a documentação pública de suporte do software e a própria API. O processo durou das 8h30 às 11h da manhã. Às 11h, os créditos do plano encerraram, porque analisar imagens consome mais créditos do que processar texto.
Na fase de desenvolvimento, à tarde, Deivison abriu um novo servidor, escolheu a tecnologia de backend e banco de dados e pediu ao Claude para entrar no modo de planejamento. A IA fez perguntas sobre quais módulos seriam necessários, uma coordenadora da equipe ajudou a responder, e ao final o Claude criou um plano de seis fases de desenvolvimento. Cada fase foi executada e entregue para testes.
O software ficou pronto? Veredito honesto
O resultado é funcional, mas não está pronto para produção. A equipe testou e encontrou bugs, alguns módulos ficaram incompletos e detalhes de comportamento específicos, como um popup de perguntas que aparece na transição de fases de um cadastro, passaram despercebidos pelo Claude durante a análise.
A estimativa de Deivison é clara: faltaria cerca de uma semana de trabalho para ajustar os bugs, fazer integrações e deixar o software confiável o suficiente para uso real. Ele não trocaria o sistema atual, que já está em produção com toda a equipe, por esse clone agora. Mas se estivesse montando uma equipe do zero, usaria sem hesitar.
Como ele resume: seria como trocar de avião no ar. Não é simples. Mas se estivesse começando, colocaria esse software para funcionar sem problema nenhum.
É pirataria? O que diz a lei brasileira
Esse foi o ponto que mais gerou debate no Twitter. A resposta direta é: não é pirataria, mas pode configurar violação de direito autoral.
Pirataria envolve copiar e distribuir o software original sem autorização. O que Deivison fez foi criar um software novo a partir da observação do comportamento do original, sem copiar uma linha de código sequer. Mesmo assim, há riscos legais relevantes.
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Conheça o Vivendo de SaaS →No Brasil, não existe patente de software. Nos Estados Unidos existe: a Amazon, por exemplo, patenteou o botão de compra com um clique. No Brasil, porém, o que protege o software é o direito autoral, e copiar a estrutura e o comportamento de forma tão direta pode ser enquadrado como violação, ainda que não haja cópia de código-fonte.
As orientações de Deivison para quem quiser fazer algo similar:
- Não comercialize o clone.
- Não divulgue o código-fonte.
- Não avise o fornecedor original.
- Use apenas internamente, com consciência do risco legal.
Engenharia reversa no mundo do software livre
O debate sobre engenharia reversa não é novo. Dois exemplos clássicos mostram que a prática pode gerar resultados legítimos e amplamente usados:
Samba: o Windows usa um protocolo de rede chamado SMB para comunicação entre máquinas. Desenvolvedores do Linux fizeram engenharia reversa desse protocolo, observando o tráfego de rede, e criaram o Samba, software que até hoje permite a comunicação entre Linux e Windows. É uma das ferramentas de rede mais usadas no mundo.
Wine: é um ambiente de compatibilidade que permite rodar softwares do Windows no Linux. Foi construído inteiramente por engenharia reversa do comportamento dos programas Windows, sem acesso ao código-fonte da Microsoft.
Deivison também relembra sua própria formação: na época do Clipper, nos anos 1990, ele usava descompiladores para analisar o código de outros softwares e aprender a programar. Sem internet disponível, era uma das poucas formas de estudar.
O que é permitido e o que é proibido
A engenharia reversa em si não é crime, mas há limites claros:
- Proibido: quebrar proteções de DRM para distribuir software crackeado.
- Proibido: usar código-fonte vazado como base para desenvolvimento, mesmo que o produto final pareça original. Isso gera risco de "contaminação" legal.
- Proibido: copiar e colar trechos de código descompilado no próprio projeto.
- Permitido: observar o comportamento externo de um software como uma caixa preta e criar uma implementação independente.
Um caso histórico ilustra bem o risco: no início dos anos 2000, uma empresa afirmou ser dona de parte do código do Linux por herança do Unix e tentou processar empresas que usavam o sistema. A briga só esfriou porque a IBM, detentora de um vasto portfólio de patentes e investidora histórica no Linux, deixou claro que poderia usar suas próprias patentes em retaliação.
O método Clean Room (Sala Limpa)
Para garantir proteção legal máxima em projetos de engenharia reversa, grandes organizações de software livre usam o método Clean Room, ou Sala Limpa. O processo funciona com dois grupos separados:
- Grupo A (análise): faz a engenharia reversa, documenta como o software funciona e escreve um manual detalhado. Não escreve código.
- Grupo B (desenvolvimento): recebe apenas o manual. Nunca viu o software original. Escreve o código do zero, baseado somente na documentação.
Esse isolamento cria uma barreira legal que demonstra que o novo software foi criado de forma independente, sem cópia direta. É a diferença entre inspiração documentada e plágio.
O futuro: a IA vai copiar tudo?
Deivison não tem dúvidas sobre a direção. O que hoje levou uma manhã inteira para analisar vai levar minutos no futuro próximo. Ele já fez algo similar com um site: pediu ao Claude para copiar uma landing page, a IA baixou os arquivos e as imagens, e ele editou e fez o deploy em questão de minutos.
Para quem vive de software, a pergunta que fica é incômoda: se qualquer produto pode ser copiado em dias, o que protege um SaaS? Deivison acredita que a resposta está no que a IA ainda não replica facilmente: a relação com o cliente, o suporte de qualidade, a reputação construída ao longo do tempo e o conhecimento profundo do nicho atendido. O código, cada vez mais, deixa de ser a parte difícil.
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