Se você programa ou trabalha com tecnologia e ainda não criou o seu próprio produto, este artigo é para você. O conceito de MicroSaaS (um modelo de negócio que combina software como serviço com operação enxuta, nicho bem definido e total independência de investidores) chegou ao Brasil lá por 2019 e 2020, quando Deivison Alves Elias começou a falar sobre o assunto pela primeira vez em português. Desde então, o interesse cresceu muito, mas ainda existe muita confusão sobre o que é de fato um MicroSaaS, o que não é, e como dar os primeiros passos para construir o seu.
O que é MicroSaaS, afinal?
A definição mais direta: MicroSaaS é um software pequeno, focado em nicho, criado por uma pessoa ou equipe muito pequena, sem investidor externo, com baixa complexidade operacional e escala limitada por escolha, e não por falta de competência.
Não é a próxima startup unicórnio. Não é um software com dezenas de funcionalidades. É uma ferramenta muito específica que resolve um problema muito específico para um grupo muito definido de pessoas. E é exatamente esse foco que permite ao criador de um MicroSaaS competir sem brigar de frente com as grandes empresas.
As cinco características que definem um MicroSaaS
Deivison sistematizou cinco características centrais. Entender cada uma delas evita que você chame de MicroSaaS algo que na verdade não é:
- Foco em nicho: Um MicroSaaS resolve um problema muito específico para um mercado muito definido. Quanto mais nichado, melhor: você não entra em guerra direta com grandes players e consegue oferecer uma solução mais personalizada e eficaz para aquele público.
- Equipe pequena: MicroSaaS é frequentemente operado por uma única pessoa ou, no máximo, uma equipe de cinco pessoas. Isso mantém os custos baixos e as operações enxutas. Não existe aqui a ideia de escritório gigante com dezenas de funcionários.
- Autofinanciado (bootstrapping): Quem trabalha com MicroSaaS normalmente não está preocupado com investidor. O dinheiro para crescer vem do próprio bolso do fundador ou da receita gerada pelo próprio negócio. Raramente se busca investimento externo, o que também significa mais controle sobre a direção da empresa.
- Baixa complexidade operacional: O software precisa ser simples. Se for complexo, já não é MicroSaaS. Sistemas e processos simples reduzem a sobrecarga de gestão e manutenção. Quanto mais simples, melhor.
- Escala limitada por escolha: Um MicroSaaS não foi projetado para atender grandes corporações. O objetivo é manter uma operação sustentável e lucrativa em menor escala. O dono de um MicroSaaS não necessariamente quer escalar a empresa para algo gigante, e tudo bem.
O programador que tem um superpoder e não usa
Deivison fez uma reflexão direta sobre o desperdício de talento. Saber programar, no contexto atual, é como saber ler na Idade Média: a maioria das pessoas não tem essa habilidade, e quem tem está num patamar de enorme vantagem competitiva.
O problema é que muitos desenvolvedores passam o dia inteiro trabalhando para outros, construindo software para empresas de terceiros, e chegam em casa para jogar videogame ou assistir Netflix. É um desperdício real de talento e tempo. Deivison inclusive cita as últimas palavras atribuídas a Leonardo Da Vinci: "Ofendi a Deus e a humanidade porque meu trabalho não alcançou a qualidade que deveria." Se Da Vinci dizia isso, o que sobra para quem simplesmente não usa o talento que tem?
A referência bíblica também aparece: a Parábola dos Talentos. No texto, aquele que enterrou a moeda de ouro, que não fez nada com o que recebeu, foi o único repreendido. A mensagem é clara: não use o seu conhecimento só para ganhar dinheiro para outros, use-o também para construir algo seu.
Deivison conta uma experiência pessoal que ilustra esse ponto: certa vez foi a uma loja comprar uma torneira e viu o comerciante usando o eGestor, o software que ele mesmo criou, para emitir o cupom fiscal. Aquela cena, de ver uma pessoa que ele não conhecia usando o seu produto, foi profundamente recompensadora. Mais do que qualquer número financeiro.
MicroSaaS não é renda passiva sem esforço
Existe uma ilusão perigosa em torno do MicroSaaS: a ideia de que é um software que "roda sozinho" e não dá trabalho. Deivison desmonta isso sem rodeios: vai dar trabalho, sim. Todo negócio dá trabalho. O MicroSaaS vai dar menos trabalho do que um SaaS com equipe grande, mas não existe milagre. A diferença é que o trabalho pode ser mais focado, mais seu, e mais alinhado com aquilo que você quer construir.
Também existe muita gente que confunde MicroSaaS com "qualquer software que eu coloco na internet". Não é isso. O conceito exige nicho bem definido, simplicidade operacional e ausência de ambição por escala a qualquer custo.
A diferença entre MicroSaaS e SaaS tradicional
Um SaaS tradicional, como o próprio eGestor que Deivison criou e que hoje tem mais de 100 funcionários num prédio de 1.000 m², não é MicroSaaS. O eGestor cresceu, contratou equipe de vendas, desenvolveu processos, abriu uma estrutura completa de suporte e marketing. Isso é SaaS.
MicroSaaS é o que vem antes disso, ou o que fica naquele estágio por escolha. Uma ferramenta simples, para um nicho claro, que gera renda como renda extra ou como negócio principal pequeno e lucrativo.
O MicroSaaS também é diferente do SaaS no que diz respeito à velocidade de desenvolvimento. Um software de MicroSaaS deve levar, no máximo, uma a duas semanas para ser construído. Se vai demorar meses, já é outro nível de projeto.
Onde buscar ideias para o seu MicroSaaS
Essa foi uma das perguntas mais frequentes durante a live. Deivison listou várias fontes concretas de inspiração:
1. Playlist de ideias no YouTube
No canal Vivendo de SaaS existe uma playlist dedicada exclusivamente a ideias de SaaS e MicroSaaS. Não é para copiar diretamente, mas para se inspirar e ligar os pontos para uma ideia própria.
2. App Store e Google Play
Vasculhe as categorias das lojas de aplicativos. Veja o que está fazendo sucesso e leia os comentários dos usuários, inclusive as reclamações. Uma reclamação frequente em um app de sucesso é um problema que ainda não foi resolvido de forma satisfatória. Esse é o seu ponto de entrada.
3. Plugins para WordPress e add-ons para Chrome e Firefox
Olhe os plugins do ecossistema WordPress e as extensões de navegador. Muita gente pensa em criar app, mas criar algo para o Chrome ou Firefox tem bem menos concorrência e pode ser um ótimo ponto de partida para um MicroSaaS.
4. Add-ons para Shopify
A loja de aplicativos do Shopify é outro lugar fértil para se inspirar, ou até para criar um add-on diretamente para a plataforma.
5. Olhe ao redor no seu trabalho atual
Deivison conta um caso pessoal: quando a funcionária responsável pelo financeiro da empresa tirou férias e ele precisou fazer o trabalho dela por 30 dias, percebeu exatamente como o processo funcionava e enxergou onde poderia melhorá-lo com uma ferramenta. Desenvolveu o sistema, que é usado internamente até hoje. O ponto é: você não precisa olhar para o mercado inteiro. Olhe para os problemas ao redor, no seu dia a dia, no trabalho dos colegas.
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Essa expressão vem do livro Getting Real, escrito pela equipe do Basecamp, que Deivison recomenda fortemente tanto para quem quer fazer SaaS quanto para quem quer fazer MicroSaaS. O livro está disponível gratuitamente em inglês na internet, e segundo Deivison, a tradução via Google Translate fica muito boa. A ideia central é simples: construa algo que você mesmo precisaria usar. Quem resolve o próprio problema tem muito mais clareza do que quem tenta adivinhar o problema dos outros.
7. Veja como as pessoas resolvem o problema hoje
Muita gente resolve problemas com planilhas, arquivos Word e processos manuais. Se você encontrar algo que as pessoas estão fazendo no Excel de forma complicada, pode transformar aquela planilha num software simples e já tem um produto para vender. Existem até sites que vendem planilhas na internet e estão ganhando dinheiro com isso. Se uma planilha vende, imagina um software um pouco mais robusto: com múltiplos usuários simultâneos, sistema de backup, sem o risco de alguém corromper uma célula e estragar tudo.
Copiar é permitido
Deivison trouxe um ponto que gera desconforto em muita gente, mas é completamente verdadeiro: não existe ideia 100% inovadora. Toda ideia é uma remixagem de algo que já existia. Quentin Tarantino copia descaradamente de outros filmes e diretores. O livro Duna copiou elementos de Lawrence da Arábia. O Star Wars copiou do Duna. Avatar copiou do mesmo filme.
No universo de startups, Russell Brunson (criador do ClickFunnels) é famoso por copiar a estrutura das landing pages dos concorrentes: muda a cor, a logomarca, o texto, mas mantém o que funciona. A lógica dele é direta: se alguém está vendendo com aquele modelo, o modelo funciona.
A mensagem prática: veja o que está funcionando no mercado, adapte para o seu nicho, coloque o seu diferencial e siga em frente. O Deivison inclusive mencionou que o site do eGestor é copiado com frequência por concorrentes, alguns chegam a esquecer de remover as tags do Google Analytics e do Facebook Pixel originais.
Como conseguir os primeiros clientes
Um dos participantes perguntou como conseguir os primeiros usuários estando ainda na fase de MVP. A resposta de Deivison foi direta e prática:
- Use a técnica milenar: ligue. Pega o telefone e liga. Não é escalável, mas funciona. No início, falar diretamente com potenciais clientes é o caminho mais rápido para conseguir feedback real e as primeiras vendas.
- Se tiver vergonha de ligar, use o WhatsApp. Crie um WhatsApp Business, capture leads via anúncios simples no Facebook ou Instagram e comece a conversa de forma mais confortável para você.
- Visite os clientes pessoalmente. Quando possível, ir até o cliente presencialmente é ainda mais eficiente.
- Não tenha medo do "não". Cada recusa é uma oportunidade de entender as objeções do mercado. A partir dessas objeções, você melhora o produto e melhora o discurso de venda.
- Invista um pouco em tráfego pago. Um pequeno orçamento em Google Ads, YouTube Ads ou anúncios no Instagram pode acelerar a captação de leads iniciais.
Deivison também conta a história de quando ele e um sócio compraram modems do Paraguai (na época em que as operadoras de telefonia não forneciam modem junto com a internet ADSL) e começaram a vender. Em menos de dois meses, pessoas de lugares desconhecidos ligavam perguntando se tinham modem para vender, simplesmente porque um cliente contava para o outro. O boca a boca acontece naturalmente quando o produto é bom. Não dependa só disso, mas saiba que vai acontecer.
Precificação: não cobre barato demais
Essa foi uma das dicas mais enfáticas: não faça um software que custa R$ 5 ou R$ 9 por mês. Deivison diz claramente que não faria nenhum software com preço abaixo de R$ 50 por mês. A lógica é simples:
Imagine que você quer faturar R$ 1.000 por mês com o seu MicroSaaS. Se cobrar R$ 10, precisa de 100 clientes. Se cobrar R$ 50, precisa de apenas 20. E captação de leads é uma das coisas mais caras que existe: cada cliente custa tempo, esforço e eventualmente dinheiro em anúncios. Quanto maior o ticket, menos clientes você precisa para o mesmo resultado.
Existe até uma frase que circula nos bastidores do mercado: "Se você quer ficar famoso, faz software B2C. Se você quer ganhar dinheiro, faz software B2B." Pessoas físicas tendem a pagar menos e cancelar mais. Empresas pagam mais e, quando estão satisfeitas, ficam por anos.
Sete dicas práticas para quem vai criar um MicroSaaS
Deivison encerrou a live com uma lista de dicas diretas:
- Nem tudo é MicroSaaS. Um software de emissão de nota fiscal eletrônica de serviço, por exemplo, parece simples mas não é. Envolve integrações complexas com prefeituras, muita variação por município e gera um volume alto de suporte. Se a complexidade operacional for alta, você saiu do território do MicroSaaS.
- Tenha ambição além do MicroSaaS. É ótimo começar pequeno. Mas não se limite a "um dinheirinho extra". Pense no médio e longo prazo: você pode terceirizar, contratar e escalar. Deivison tirou 30 dias de férias na Europa sem ligar uma vez para a empresa, porque construiu processos e equipe. Tudo começa pequeno.
- Não cobre barato demais. O preço baixo demais é uma armadilha. Defina um preço que respeite o valor entregue e que faça sentido financeiramente para a operação.
- Lance rápido. Se o seu MicroSaaS vai demorar mais de uma ou duas semanas para ficar pronto, ele provavelmente não é tão "micro" assim. Lance com o que está funcional. O Basecamp lançou sem o sistema de cobrança e usou os 30 dias seguintes para desenvolvê-lo enquanto já conquistava usuários.
- Evite vender para grandes empresas. Empresa grande tem burocracia para comprar. O ciclo de vendas pode ser de três a seis meses. Para um MicroSaaS que precisa de caixa rápido e ciclo curto, isso é inviável. Foque em pequenas e médias empresas, que decidem mais rápido.
- Não fique desenvolvendo o que pode ser feito manualmente no início. Não tem recuperação de senha? Sem problema: você faz isso manualmente quando o cliente pedir. Não tem painel de cobrança? Tudo bem no início. Lance o software e vá adicionando funcionalidades conforme os clientes forem pedindo. Esse é o princípio do Getting Real.
- Comece como pessoa física. Não precisa abrir empresa no dia um. Venda como pessoa física. Quando as vendas crescerem de verdade, aí sim você abre uma empresa. Deivison fez isso com o Vivendo de SaaS no início.
O exemplo do Vinilator: software simples, resultado grande
Deivison conta a história de um ex-sócio chamado Vinícius, que criou um software chamado Vinilator. Era basicamente uma janelinha no canto da tela do computador que traduzia palavras ao clicar nelas. Simples assim. Antes do Google Tradutor existir da forma como existe hoje, era uma ferramenta extremamente útil.
Quando Vinícius mostrou o Vinilator para Deivison, disse que achava que ninguém ia querer baixar, afinal era "só um webview". Deivison insistiu que colocasse disponível para download. O software fez sucesso: muita gente baixou. O problema é que Vinícius não soube monetizar na época. Mas a lição permanece: um software extremamente simples pode gerar muito acesso e muito resultado.
O próprio Deivison aprendeu inglês usando o Vinilator: assistia Friends com legenda em inglês, pausava, clicava na palavra desconhecida e traduzia. Assistiu as 10 temporadas assim.
Gateway de pagamento: qual usar?
Uma das perguntas frequentes ao lançar um SaaS é sobre qual gateway de pagamento usar. A resposta honesta: não existe um perfeito, todos têm vantagens e problemas. As opções mais comuns no mercado incluem Stripe, Hotmart, Vindi, Super Lógica e o EFI (antigo Gerencianet).
O Stripe é excelente tecnicamente, mas tem limitações importantes: não suporta parcelamento do plano anual (algo comum no Brasil) e não tem integração nativa com Pix. O Hotmart tem uma plataforma mais pesada, mas é reconhecido e funciona. A recomendação de Deivison foi buscar um vídeo comparativo no canal "Sem Codar" no YouTube, que fez uma análise detalhada dos gateways disponíveis no mercado brasileiro.
Considerações finais: comece pequeno, mas comece
A mensagem mais importante pode ser resumida assim: você tem um superpoder. Saber programar é uma habilidade que a maioria das pessoas não tem. Usar esse superpoder para construir algo que ajuda outras pessoas, mesmo que pequeno, mesmo que simples, mesmo que imperfeito, é infinitamente melhor do que deixá-lo parado.
Não precisa ser grande. Não precisa ser inovador. Não precisa ser perfeito no lançamento. Precisa resolver um problema real de um grupo específico de pessoas, ter um preço justo e estar disponível para quem precisa. O crescimento vem com o tempo, muitas vezes sem nem precisar investir em marketing, porque clientes satisfeitos indicam outros clientes.
Como o Basecamp ensina no Getting Real, e como Deivison reforça com sua própria experiência: construa algo simples, lance rápido e melhore continuamente. Esse é o caminho do MicroSaaS. Se a ideia é construir um portfólio com vários produtos, leia: Bruno Okamoto e a tese de carteira de MicroSaaS no Brasil.
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