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Vender Software Sem Assinatura em 2026: o Modelo que o Mercado Esqueceu

👤 Deivison 📅 Abr 6, 2026 ⏱ 16 min de leitura

Todo mundo está indo para o SaaS. Assinatura mensal, receita recorrente, MRR crescendo, LTV calculado. É o modelo dominante, e por boas razões. Mas Deivison, fundador do eGestor e do canal Vivendo de SaaS, levantou uma questão provocadora: e se, em 2026, parte da resposta para ganhar dinheiro com software estiver justamente no modelo que o mercado resolveu abandonar? Software instalável, vendido uma única vez, sem mensalidade, sem nuvem, sem churn.

Neste artigo

  • O que é o modelo de software de licença única e por que ele voltou à conversa
  • Por que o mercado está cansado de assinatura
  • As vantagens reais do software instalável: sem churn, sem servidor, dinheiro na hora
  • O problema de fluxo de caixa do SaaS que ninguém gosta de admitir
  • LTV é uma promessa. Dinheiro à vista é real.
  • O teto do SaaS e como o modelo de licença única escapa dele
  • Como criar recorrência mesmo vendendo software uma única vez
  • Software instalado como isca digital para vender SaaS
  • Os problemas do modelo: pirataria, suporte, atualizações
  • Conclusão: não é fórmula mágica, é mais uma possibilidade

O modelo que o mundo do software esqueceu

Antes do SaaS dominar, era assim que todo software era vendido. Você desenvolvia, compilava, gerava um instalador, entregava ao cliente. O cliente pagava uma vez, instalava na máquina e o software era dele. Bill Gates ficou bilionário exatamente com esse modelo. O Windows, o Office, todas as grandes fortunas do começo da era do software foram construídas dessa forma.

Hoje o modelo tem um nome novo: software de licença única, ou simplesmente "one-time purchase". A mecânica é a mesma de sempre: você vende o software, o cliente paga uma vez, instala onde quiser e não existe cobrança mensal. O que mudou é o contexto em que essa discussão acontece, porque em 2026 o mercado de software é dominado por assinaturas e existe um contingente crescente de pessoas que está ativamente resistindo a esse modelo.

Deivison não está defendendo que você abandone o SaaS. Ele mesmo está no SaaS e não pretende sair. A ideia é mais simples do que isso: existe dinheiro a ser feito com software instalável, e ignorar essa possibilidade por puro foco no SaaS pode ser um erro estratégico, especialmente para quem está começando ou para quem quer diversificar fontes de receita.

Por que as pessoas estão fartas de assinatura

Pense na vida financeira de um consumidor médio hoje. Netflix. Spotify. Adobe Creative Cloud. Antivírus. Plataforma de e-mail marketing. Ferramenta de gestão. CRM. ERP. Cada software que ele usa cobra uma mensalidade. Somadas, essas assinaturas representam uma parte considerável do orçamento, tanto pessoal quanto empresarial.

Existe um cansaço real com esse modelo. As pessoas começaram a questionar se faz sentido pagar para sempre por um software que elas usam eventualmente. E esse questionamento criou um mercado: o de quem prefere pagar mais caro uma única vez e não ouvir falar mais em cobrança recorrente.

Quando o SaaS surgiu, o problema era o oposto. Em torno de 2009, quando o eGestor foi lançado, o modelo padrão era o software instalável. SaaS era novidade estranha. As pessoas tinham medo de colocar dados na nuvem. "Como assim, vocês vão ficar com minhas informações?" era a objeção padrão. Deivison conta que, para contornar essa resistência no começo do eGestor, a equipe modificou o Firefox (software de código aberto), removeu a barra de endereço, criou um instalador e distribuiu em portais como o Baixaki. O cliente baixava algo que parecia um software instalado, mas na verdade era um navegador abrindo o sistema em nuvem. Era um wrapper para driblar o preconceito contra SaaS.

Hoje o preconceito virou ao contrário. E quem souber aproveitar essa mudança de percepção tem uma oportunidade real.

As vantagens do software de licença única

Deivison lista uma série de vantagens concretas do modelo de software instalável que merecem ser analisadas com seriedade, não como nostalgia, mas como cálculo de negócio.

Você recebe o dinheiro na hora

Se alguém está disposto a pagar R$ 100 por mês em um SaaS, há uma boa chance de que esse mesmo cliente pague R$ 1.000 por um software que seja definitivamente dele, sem cobrança futura. E em vez de esperar 10 meses para acumular R$ 1.000, você recebe tudo de uma vez. Isso resolve problemas de fluxo de caixa no curto prazo de uma forma que o SaaS simplesmente não consegue.

Sem churn

No SaaS, churn é o pesadelo permanente. Todo mês existe o risco de o cliente cancelar, e cada cancelamento é uma perda de receita futura que você já havia contabilizado. No software de licença única, o conceito de churn não existe da mesma forma. O cliente comprou, o dinheiro é seu. Se ele parar de usar o software, isso é problema dele, não uma perda na sua linha de receita.

Sem custo de servidor

Um dos custos que os fundadores de SaaS frequentemente subestimam é a infraestrutura. AWS, Oracle Cloud, Google Cloud: quanto mais você cresce, mais você paga. Em um software instalado, o processamento acontece na máquina do cliente. O custo de servidor cai drasticamente ou desaparece por completo. Deivison cita o Real Oficial como exemplo: Antônio, o fundador, criou uma opção no software para que o processamento de corte de vídeo ocorra no computador do usuário em vez dos servidores da empresa, reduzindo significativamente a conta de infraestrutura.

Estoque infinito

Software não tem estoque. Você faz uma vez e vende para quantas pessoas quiser. Compare isso com qualquer negócio de produto físico: você precisa de capital para comprar, armazenar e despachar. Com software instalável, o custo marginal de cada venda adicional é praticamente zero.

O parcelamento é problema do banco

O cliente não tem R$ 1.000 para pagar à vista? Divide em 12 vezes no cartão de crédito. Você recebe o valor integral (menos as taxas da operadora), e qualquer problema de inadimplência passa a ser responsabilidade da operadora, não sua. É diferente de uma assinatura mensal, onde cada cobrança futura depende de o cartão do cliente continuar válido e com limite disponível.

O problema de fluxo de caixa do SaaS que ninguém gosta de admitir

O SaaS tem uma característica estrutural que incomoda quem está nos primeiros anos de operação: quanto mais você vende, mais endividado você fica no curto prazo. Isso acontece porque você investe em aquisição de clientes agora, mas o retorno vem diluído ao longo dos meses de assinatura. O custo de aquisição é imediato; a receita é parcelada em tempo real.

É um problema que Deivison já abordou em outros vídeos, mostrando os gráficos de fluxo de caixa típicos de um SaaS em crescimento. A curva é clara: no início, você gasta mais do que recebe. O breakeven acontece meses depois, e o lucro real, dependendo do churn, pode demorar mais ainda.

Uma das soluções que ele menciona para aliviar esse problema dentro do próprio SaaS é cobrar anualmente em vez de mensalmente. Você recupera o custo de aquisição muito mais rápido, fica menos endividado no curto prazo e não fica ansioso a cada cobrança mensal. É exatamente a lógica do software de licença única aplicada dentro do modelo de assinatura.

No modelo de licença única, esse problema simplesmente não existe da mesma forma. Você vendeu, recebeu, entregou. O fluxo de caixa é imediato.

LTV é uma promessa. Dinheiro à vista é real.

Essa frase resume um dos pontos centrais do argumento e merece atenção especial.

No SaaS, o Lifetime Value (LTV) é uma das métricas mais valorizadas. Ele representa quanto um cliente vai gastar com você ao longo de toda a sua vida como cliente. É um número que aparece em pitch decks, conversas com investidores e nas planilhas de todo fundador de SaaS.

Mas o LTV é uma estimativa. É uma projeção baseada em comportamento histórico de clientes que podem ou não ficar pelo tempo calculado. Se o seu churn é de 5% ao mês, um cliente dura em média 20 meses. Se ele paga R$ 200 por mês, o LTV é R$ 4.000. Mas isso pressupõe que ele não vai cancelar antes disso, que o mercado não vai mudar, que um concorrente não vai aparecer com uma oferta melhor.

No software de licença única, você faz a troca de forma explícita: em vez de esperar 20 meses para receber R$ 4.000 diluídos, você oferece o software por R$ 1.000 agora. O cliente paga, você entrega. Nenhuma projeção, nenhuma premissa sobre o futuro. É dinheiro real, no presente, sem dependência de comportamento futuro do cliente.

Para certas situações e certos perfis de cliente, essa troca faz total sentido dos dois lados. O cliente ganha a segurança de não ter uma cobrança mensal indefinida. Você ganha capital imediato para reinvestir.

O teto do SaaS que ninguém quer admitir

Existe um fenômeno estrutural no SaaS que afeta qualquer empresa que cresce o suficiente: o teto de clientes. Deivison explica com um exemplo direto:

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Imagine que sua estrutura de vendas e marketing consegue trazer 100 novos clientes por mês. Ótimo. Mas à medida que sua base cresce, o churn absoluto também cresce. Com 5.000 clientes e 2% de churn mensal, você perde 100 clientes por mês. Com 10.000 clientes, perde 200. Em algum momento, o número de clientes que você perde se iguala ao número que você conquista, e a empresa trava. Mantém o MRR estável, mas não cresce.

Quando isso acontece, você precisa tomar uma decisão difícil: aumentar a capacidade de vendas (mais custos), reduzir o churn (mais foco em produto e sucesso do cliente) ou expandir o ticket médio. Não existe crescimento automático indefinido, mesmo no SaaS. Deivison já tratou desse tema em outros vídeos e deu ideias de como empurrar esse teto para cima, mas a realidade é que o teto existe e toda empresa de recorrência vai encontrá-lo em algum momento.

No modelo de licença única, o teto existe também, mas de forma diferente. Você precisa de novos compradores constantemente, porque não há receita recorrente garantida. O esforço de vendas nunca para. Mas ao mesmo tempo não existe a dinâmica de crescer a base e ao mesmo tempo aumentar o cancelamento absoluto. Cada venda é uma venda finalizada.

Como criar recorrência mesmo vendendo software uma única vez

A crítica mais óbvia ao modelo de licença única é a ausência de recorrência. E ela é válida. Mas existem formas concretas de criar algum nível de receita recorrente mesmo dentro desse modelo:

Novas versões anuais

É o que as empresas de software instalável sempre fizeram. Você lança uma versão nova com funcionalidades relevantes uma vez por ano. Isso não garante que o cliente vai comprar de novo, mas cria uma razão legítima para entrar em contato, fazer uma oferta e reativar um cliente que já confia no seu produto. Você pode cobrar o valor cheio da nova versão ou oferecer um desconto para quem já é cliente: "Primeira compra: R$ 1.000. Atualização: R$ 600."

Suporte pago

O software foi vendido, mas o suporte pode ser cobrado separadamente. O cliente que precisar de atendimento técnico, configuração inicial ou resolução de problemas complexos paga por isso. É uma fonte de receita complementar que não precisa estar incluída no preço de venda.

Implantação como serviço

Cobrar pela implantação do software era prática comum no mercado de software empresarial e ainda é usada por muitas empresas. O cliente paga pela instalação, configuração e treinamento inicial. É uma receita de serviço que acompanha a venda do produto.

Módulos e funcionalidades adicionais

Versão básica a um preço. Módulos avançados cobrados à parte. Integração com outros sistemas como serviço adicional. A licença única do núcleo do produto pode ser complementada por vendas adicionais ao longo do tempo.

Plano de backup ou acesso remoto com mensalidade

A versão instalada fica no computador do cliente, sem custo recorrente. Mas se o cliente quiser backup automático na nuvem, acesso remoto de qualquer dispositivo ou sincronização entre múltiplas máquinas, você pode cobrar uma mensalidade pequena por esses serviços. O software principal é one-time; os serviços em torno dele são recorrentes. É exatamente como muitas empresas de software empresarial tradicional operam até hoje.

Software instalado como isca digital para vender SaaS

Deivison levanta uma aplicação mais sofisticada que poucos consideram: usar o software instalável como ferramenta de captura de leads para o SaaS principal.

A lógica é direta. Você cria um software instalável de valor real, relacionado ao problema que seu SaaS resolve. Disponibiliza gratuitamente ou a um preço muito baixo. Para baixar, o usuário deixa nome, e-mail e telefone. Depois, você entra em contato para apresentar o SaaS.

É uma variação do que Deivison já faz com planilhas: ele oferece uma planilha de controle financeiro como isca, coleta os dados de contato e usa isso para nutrir leads. Um software instalado bem feito, especialmente com recursos de inteligência artificial, pode funcionar da mesma forma com uma percepção de valor muito maior do que uma planilha.

O benefício duplo é que, mesmo quem não virar cliente do SaaS gerou receita com a compra do software. E quem virar cliente do SaaS chegou com um nível de confiança muito maior, porque já usou e validou algo que você construiu.

Os problemas do modelo: não é tudo as mil maravilhas

Deivison é cuidadoso em não vender o modelo de licença única como solução perfeita. Existem problemas reais que precisam ser considerados antes de qualquer decisão.

Sem recorrência garantida

Esse é o problema central e não tem solução completa. No SaaS, a recorrência é uma das coisas mais próximas de estabilidade que existe no empreendedorismo. Você sabe quanto vai receber no mês seguinte com razoável precisão. No software instalável, você depende de novas vendas constantemente. Mês ruim em vendas é mês ruim de faturamento, sem os clientes antigos amortecendo a queda.

Suporte mais complexo

No SaaS, quando você corrige um bug, todos os clientes recebem a correção automaticamente. No software instalado, o cliente está rodando na própria máquina. Pode ser uma versão diferente da sua. O sistema operacional pode ter atualizado e quebrado alguma coisa. O cliente pode ter instalado em um hardware incompatível. Depurar esse tipo de problema remotamente é trabalhoso. E visitar o cliente pessoalmente é inviável para qualquer empresa que queira escalar geograficamente. Por isso software empresarial instalado tende a ser um negócio local: a empresa de Rio Grande do Sul tem dificuldade de vender para clientes no Nordeste, porque o cliente quer saber que alguém pode ir até ele resolver presencialmente.

Pirataria

Software instalado pode ser copiado, crackeado e distribuído gratuitamente. Isso acontece com produtos de empresas muito maiores do que a sua: o Adobe Premiere é pirateado amplamente até hoje. Existem mecanismos para dificultar a pirataria, mas nenhum elimina o risco por completo. Para nichos pequenos ou softwares muito específicos, o risco pode ser menor. Para softwares de apelo amplo, é um problema real que precisa entrar no cálculo.

Atualizações são um atrito

Imagine que você descobriu um bug crítico depois de vender para 200 clientes. No SaaS, você corrige no servidor e o problema está resolvido para todos. No software instalado, você precisa que cada um dos 200 clientes baixe e instale a atualização manualmente. Nem todo mundo sabe fazer isso. Nem todo mundo faz na hora. Você fica com clientes rodando versões diferentes, com problemas diferentes, e o suporte fica exponencialmente mais complexo.

A conta de vender 16 licenças por mês

Para deixar o argumento mais concreto, Deivison faz uma conta simples. Se você vende um software instalável por R$ 600 por licença e consegue fechar 16 vendas por mês, você está faturando R$ 9.600 mensais. Isso não é muito diferente do que muitas pessoas que estão começando no SaaS levam um ano ou mais para atingir.

Não parece tão absurdo quando colocado nesses termos. Não é o caminho para receita recorrente de R$ 100 mil por mês, mas é um modelo que gera caixa real, imediato, sem a complexidade de infraestrutura de um SaaS, sem a pressão de churn e sem o problema de fluxo de caixa do começo de um negócio de assinatura.

E é um modelo que muitas pessoas dentro da comunidade de desenvolvedores já estão usando, conforme as respostas ao post de Deivison no Twitter mostraram. Não é teoria. É prática atual de pessoas que preferiram a simplicidade e o caixa imediato à complexidade e ao potencial de longo prazo do SaaS.

Não é uma fórmula mágica. É uma possibilidade real.

Deivison termina com uma ressalva importante: nada do que foi apresentado é fácil. Não importa o modelo escolhido, vai dar trabalho. A internet está cheia de promessas de riqueza fácil, e o modelo de software de licença única não é exceção. Quem achar que é só criar um software, colocar para venda e esperar o dinheiro chegar vai se decepcionar da mesma forma que se decepciona com qualquer outra promessa do tipo.

O ponto não é trocar o SaaS pelo software instalável. O ponto é abrir o campo de visão. Existem múltiplas formas de ganhar dinheiro com software. O SaaS continua sendo, na avaliação de Deivison, o melhor modelo de negócio de software do mundo para quem quer crescimento de longo prazo e receita previsível. Mas não é o único modelo.

Em 2026, com o mercado saturado de assinaturas e com ferramentas de desenvolvimento que permitem criar software instalável de qualidade com muito menos esforço do que antes, ignorar essa possibilidade sem nem pensar nela é deixar dinheiro na mesa. Talvez você já tenha um SaaS e possa criar um produto instalável complementar como isca de leads. Talvez você esteja começando e queira dinheiro em caixa antes de se comprometer com a estrutura de um SaaS. Talvez você queira testar uma ideia de produto sem o custo de infraestrutura de um sistema em nuvem. Em todos esses casos, o modelo de licença única merece estar na sua lista de opções: não como nostalgia, mas como estratégia.

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