Uma pergunta num grupo do Facebook reuniu dúvida que muitos fundadores de SaaS têm mas nunca verbalizam: "Estou pensando em criar um time comercial para o meu SaaS, mas estou inseguro porque não sei se meu software tem ticket para suportar essa estrutura. Cerca de R$ 1.600 anuais, uns R$ 133 mensais. Alguém aqui usa times comerciais? Que dicas podem dar?"
Deivison, fundador do eGestor e do NFE+, respondeu essa pergunta publicamente no canal porque sabia que atingia muita gente. A resposta curta é que R$ 1.600 anuais é suficiente para começar, ele mesmo começou com menos que isso. Mas o ticket médio não é o número que você deveria estar olhando primeiro. Antes de contratar qualquer pessoa, existe uma sequência de métricas que precisa ser compreendida, e ignorá-las pode criar problemas sérios na empresa.
O número que realmente importa antes do ticket médio
Muito fundador de SaaS chega na ideia de montar um time comercial motivado por uma sensação: as vendas estão acontecendo, o produto está funcionando, é hora de escalar. Essa motivação é legítima, mas a execução sem base numérica costuma gerar frustração.
O ticket médio importa, sim. Com R$ 133 mensais por cliente, é possível construir um time comercial. Mas ele é apenas um dado dentro de uma equação maior. A sequência correta começa por outro lugar: a lucratividade da empresa.
Se você não tem o hábito de olhar para os números do seu SaaS além do faturamento bruto, esse é o momento de mudar. Quem cuida só do produto e ignora as métricas financeiras não consegue saber se o investimento em vendas está funcionando, se ainda há margem para contratar mais, ou se a empresa está queimando dinheiro sem perceber.
Primeira métrica: lucratividade, e como ler o DRE
O ponto de partida para decidir se é hora de montar um time comercial é a lucratividade da empresa. E a forma correta de medir isso é pelo DRE, o Demonstrativo do Resultado do Exercício. Se você emite nota fiscal de tudo e tem um contador, peça esse relatório: ele vai mostrar, em percentual, quanto do faturamento sobra de lucro real.
Deivison usa duas referências práticas. Para empresas bootstrap, aquelas que crescem com o próprio capital sem investidor externo, a lucratividade recomendada é de 30%. Se a empresa está em fase de expansão acelerada e aceitando queimar um pouco mais para crescer, o mínimo aceitável é 20%.
Abaixo de 20% de lucratividade, o risco aumenta muito. Qualquer imprevisto, um mês ruim de churn, uma despesa extra, pode comprometer a saúde financeira do negócio. Contratar um time comercial nesse cenário sem antes resolver a margem é apostar numa estrutura que pode piorar o problema em vez de resolvê-lo.
A lucratividade é o semáforo inicial: verde acima de 20%, atenção abaixo disso.
Segunda métrica: CAC, o custo real de adquirir um cliente
Depois de entender a lucratividade, o próximo número essencial é o CAC, o Custo de Aquisição de Clientes. Ele representa tudo que a empresa gasta para trazer um novo cliente, e o erro mais comum é subestimá-lo porque o fundador pensa apenas no salário do vendedor.
O CAC real inclui muito mais do que isso. Deivison lista os componentes que precisam entrar no cálculo:
- Salário dos vendedores e dos pré-vendedores (SDRs)
- Comissões pagas
- Encargos trabalhistas: para contratos CLT, o custo total é aproximadamente 1,8 vezes o salário bruto. Quem paga R$ 1.000 de salário está gastando perto de R$ 1.800 com aquele funcionário
- Investimento em propaganda paga
- Custos de marketing de conteúdo
- Ferramentas de automação e CRM: RD Station, HubSpot, Mailchimp, Lead Lovers, e qualquer outro software usado no processo de vendas entra aqui
Tudo que tem relação com o processo de aquisição de clientes, direto ou indireto, compõe o CAC. Ignorar qualquer um desses itens produz uma ilusão: parece que o custo está controlado, mas na prática a empresa está gastando mais do que imagina para trazer cada cliente.
Terceira métrica: LTV, quanto cada cliente vale de verdade
O LTV, ou Lifetime Value, responde à pergunta: quanto dinheiro um cliente deixa na empresa durante todo o tempo em que permanece ativo? Esse número é o contraponto do CAC e é com a relação entre os dois que se decide se faz sentido investir em vendas.
O erro clássico na visão do LTV é imaginar que um cliente de SaaS fica para sempre. A recorrência é um dos maiores atrativos do modelo, mas o churn existe, o cancelamento acontece. Empresas fecham, cenários mudam, os clientes saem. O LTV precisa ser calculado levando isso em conta.
Deivison ensina um método simplificado para estimar o LTV. A fórmula tem dois passos:
- Divida 100 pela taxa de churn mensal média. Com 1% de churn, o resultado é 100, o que significa que os clientes ficam, em média, 100 meses na empresa
- Multiplique esse número pelo ticket médio mensal. Com ticket de R$ 100 e clientes ficando 100 meses, o LTV é de R$ 10.000
Ele reconhece que esse método é uma estimativa bruta. Para quem quer aprofundar o cálculo com metodologia mais precisa, a referência é o trabalho de Rodrigo Fernandes, disponível na plataforma Vivendo de SaaS. Mas para ter uma noção inicial e tomar a decisão de contratar ou não, a fórmula simples já resolve.
A regra dos três: LTV tem que ser pelo menos três vezes o CAC
Com os dois números em mãos, CAC e LTV, a decisão fica muito mais objetiva. David Skok, referência em métricas de SaaS com o conceito de SaaS Metrics 2.0, define uma proporção que virou padrão no mercado: o LTV precisa ser pelo menos três vezes maior que o CAC.
Usando o exemplo anterior: com LTV de R$ 10.000, o CAC pode ser de até R$ 3.300. Se o custo de adquirir um cliente está abaixo disso, o modelo de vendas é saudável. Se está acima, o negócio perde dinheiro em cada aquisição, e escalar as vendas só amplifica o problema.
Essa relação também orienta quanto investir. Se o LTV for alto, a empresa pode gastar mais para conquistar cada cliente e ainda assim ter margem. Se o LTV for baixo porque o churn está alto, o investimento em mais vendedores vai resultar em crescimento de custo, não de lucro.
Por isso, quando o churn está elevado, a prioridade antes de montar um time comercial é corrigir o produto. Contratar vendedores que trazem clientes que cancelam em poucos meses é, como Deivison descreve, "um balde furado". As vendas acontecem, mas o negócio não cresce.
O alerta sobre ligação fria com ticket baixo
Uma das observações mais práticas do conteúdo é sobre a combinação entre ticket baixo e prospecção ativa por ligação fria. Deivison deixa claro: ligação fria funciona, mas é sofrido, e no caso de tickets menores, o sofrimento é proporcionalmente maior.
Quando o ticket é alto, fechar dois contratos por mês já representa um número relevante de receita. O time aguenta bem os "nãos" porque cada "sim" compensa bastante. Com ticket baixo, o volume de ligações necessário para fechar um número significativo de vendas é muito maior, e os vendedores sofrem mais com as rejeições.
A recomendação é que, antes de escalar para ligação fria, a empresa tenha fluxo de leads vindo de propaganda paga ou marketing de conteúdo. Estratégias de inbound, onde o cliente demonstra algum interesse antes do contato, tornam o processo comercial muito mais eficiente independentemente do ticket.
A estrutura do primeiro time: três estagiários como SDRs
Depois de validar lucratividade, CAC e LTV, chega a hora de montar o time. Deivison tem uma posição bem definida sobre como começar: três estagiários como SDRs, ou pré-vendedores, em vez de um ou dois vendedores sênior vindos do mercado.
O SDR, Sales Development Representative, tem uma função específica: prospectar, qualificar e agendar reuniões. Não fecha vendas. Essa separação de responsabilidades é intencional e torna o processo muito mais sustentável no início.
A lógica de contratar três em vez de um é simples: quem coloca todas as fichas num vendedor estrela fica vulnerável. Se a pessoa não performa, a conclusão precipitada é que "processo de vendas não funciona" e o founder desiste. Se a pessoa performa muito bem, o risco é de dependência. Com três pessoas, a empresa aprende com o processo, tem flexibilidade para substituição e começa a construir uma cultura comercial.
Para se aprofundar em como esse papel se encaixa na estrutura maior do time de SaaS, vale ler o artigo sobre como estruturar o time do seu SaaS que detalha as funções de desenvolvimento, vendas, marketing e suporte.
Estagiário, não CLT sênior: os motivos práticos
A escolha por estagiários tem razões além do custo. A primeira é cultural: vender software é diferente de vender qualquer outro produto, e Deivison prefere treinar pessoas do zero dentro da cultura da empresa do que contratar alguém com vícios de mercados distintos.
Quer viver de SaaS? Aprenda a criar e escalar produtos SaaS com quem já viveu isso na prática.
Conheça o Vivendo de SaaS →A segunda é trabalhista: estagiários não têm direito a comissionamento. Isso simplifica muito a estrutura inicial. Para compensar, a recomendação é pagar uma bolsa acima da média de mercado. Isso atrai pessoas boas, reduz a pressão por formalização imediata e cria um ambiente de teste real: se a pessoa performar em seis meses, vira CLT.
O estagiário não precisa conhecer o produto em profundidade. O trabalho dele é entender o perfil do cliente ideal, prospectar, qualificar e agendar uma reunião. Quem fecha é o fundador ou um sócio. Como os estagiários ficam no mesmo ambiente físico, eles ouvem as conversas, aprendem sobre o produto e, com o tempo, estão prontos para evoluir para vendedores completos.
O sócio como closer: por que funciona agora e por que não pode durar
No começo, o modelo funciona com os estagiários agendando reuniões e o fundador, ou sócio, fazendo o fechamento. Essa divisão tem vantagens claras: o fundador conhece o produto melhor do que qualquer vendedor externo, tem credibilidade com o cliente e consegue transmitir a visão da empresa de forma natural.
O problema aparece no médio e longo prazo. Quando o sócio centraliza as vendas, ele cria um gargalo. Ninguém mais fecha com a mesma eficiência, e o discurso de "só eu sei vender" começa a travar o crescimento. A empresa fica refém de uma pessoa que deveria estar cuidando de outras coisas.
A saída é usar o período em que o sócio é closer para treinar os estagiários. Eles estão perto, ouvindo cada conversa, aprendendo cada argumento. Com o tempo, assumem o processo de fechamento e o sócio sai do ciclo de vendas. Quem não planeja essa transição desde o início vai sofrer para fazê-la depois.
Home office no início: um erro que custa caro
Deivison é direto sobre esse ponto: nada de home office para o time comercial no início. A equipe precisa estar junta, no mesmo espaço físico, perto do fundador.
Os motivos são concretos. Primeiro, a criação de cultura: uma equipe que se forma de forma presencial desenvolve identidade e ritmo de trabalho mais rápido. Segundo, o aprendizado orgânico: quando os estagiários ouvem o fundador trabalhando, falar com clientes e resolver problemas, absorvem conhecimento sem que ninguém precise formalizar um treinamento. Terceiro, a competição saudável: times presenciais criam comparação e motivação entre os membros de forma natural.
Pode existir home office no futuro, quando o processo já está rodando e a cultura está estabelecida. Mas criar um time comercial à distância, desde o início, dificulta a formação de todos esses elementos.
Como contratar: o teste de coachability
Uma das práticas mais valiosas que Deivison aprendeu veio do livro "The Sales Acceleration Formula" de Mark Roberge, ex-HubSpot. O teste de coachability é o primeiro filtro que qualquer candidato ao time comercial precisa passar.
O teste funciona assim: durante a entrevista, peça ao candidato que venda algo. Pode ser uma caneta, um celular, qualquer objeto que esteja na mesa. Deixe ele vender, observe o discurso e preste atenção na abordagem. Depois, dê um feedback específico: "acho que você poderia tentar dessa maneira". E peça que ele venda de novo.
O que você observa na segunda tentativa é o ponto central: o candidato ouviu o feedback? Incorporou as sugestões? Ajustou a abordagem? Se sim, ele tem coachability, a capacidade de ser treinado e melhorar com orientação. Se ele repetiu exatamente o mesmo discurso ou ignorou o feedback, esse é um sinal de que vai ser muito difícil desenvolvê-lo dentro da sua cultura de vendas.
Esse tipo de teimosia aparece especialmente em quem vem de outras empresas com métodos muito diferentes. A pessoa chega convicta de que a forma como aprendeu é a certa e resiste a qualquer mudança. Para um time que está construindo um processo do zero, essa resistência é um problema sério.
O candidato que pula de galho em galho
Deivison tem outra regra pessoal que segue com rigor: não contrata ninguém que nunca ficou pelo menos um ano em algum lugar. Toda vez que quebrou essa regra, teve problemas.
Ele conta dois casos concretos. No primeiro, contratou um candidato com currículo impressionante, que falava vários idiomas e se apresentava muito bem. Mas tinha um histórico de empregos curtos. Deu problema. No segundo, uma candidata com currículo excelente e muita experiência, mas com a mesma característica de ficar pouco tempo em cada empresa. Foi contratada, ficou menos de 16 meses e saiu com confusão.
A lógica é simples: quem pula de galho em galho tende a fazer isso em qualquer empresa. Não importa o currículo, a apresentação na entrevista ou as referências. O padrão comportamental fala mais alto. Isso vale até para estagiários: candidatos muito jovens também podem mostrar esse histórico, e ele já é um sinal de alerta.
Esse cuidado na contratação é especialmente importante para o time de vendas, onde a rotatividade gera custo duplo: o da demissão e do novo processo seletivo.
O erro do comissionamento por porcentagem
Antes de fechar o processo de contratação, existe um ponto sobre comissionamento que Deivison aborda com ênfase: não pague porcentagem da carteira ao vendedor.
O raciocínio é de longo prazo. Se você dá ao vendedor 5% da carteira de clientes que ele trouxe, e a empresa cresce muito, esse vendedor vira um "marajá", recebendo uma fatia crescente de uma carteira que ficou grande ao longo dos anos. Quando a empresa quiser rever o modelo de comissionamento, esse vendedor vai resistir, pode pedir demissão ou criar conflito interno. E a lei de isonomia salarial complica ainda mais a situação: para demiti-lo e contratar outro, você precisa oferecer condições parecidas, o que perpetua o modelo problemático.
Modelos de comissionamento bem estruturados existem e valem aprender antes de definir qualquer política. O custo de estruturar mal o comissionamento agora é pago caro no futuro, quando a empresa já estiver maior e mais difícil de reorganizar.
Leitura obrigatória: Spin Selling
Para o time comercial, Deivison tem uma leitura obrigatória que todo mundo que entra na empresa precisa fazer: o livro Spin Selling. Não é sugestão, é exigência. Depois de um mês na empresa, o novo funcionário precisa apresentar o livro para o time, com o conteúdo na ponta da língua.
O Spin Selling é relevante especialmente para venda de software porque aborda como conduzir uma conversa de vendas de forma consultiva, entendendo o problema do cliente antes de apresentar qualquer solução. Vender software não é como vender um eletrodoméstico, e esse livro ajuda o time a entender exatamente essa diferença.
Se você ainda não leu, o artigo sobre Spin Selling aplicado ao SaaS aqui no blog explica como o método funciona na prática para fechar contratos de software sem depender de demonstrações de funcionalidades.
O que vem depois: construindo a máquina de vendas
Quando o processo de SDRs agendando reuniões e founder fechando está funcionando, a próxima etapa é treinar os próprios SDRs para assumir o fechamento. Esse movimento retira o gargalo do sócio e cria um time completo, com pré-vendedores qualificando e vendedores fechando.
Para entender como esse modelo de separação de papéis foi sistematizado em escala, o livro Receita Previsível de Aaron Ross, que inspirou a estrutura de vendas da Salesforce, é a referência. O artigo sobre Receita Previsível no SaaS detalha os três pilares que fazem uma máquina de vendas funcionar de forma previsível e escalável.
Outro texto útil nessa jornada é o de como conquistar os 100 primeiros clientes do seu SaaS, que aborda o que vem antes da estruturação de um time comercial completo e por que a base de clientes iniciais é tão importante para validar o processo.
A sequência completa, resumida
Antes de contratar qualquer pessoa, valide três números: lucratividade acima de 20% pelo DRE, CAC calculado com todos os custos reais de aquisição e LTV pelo menos três vezes maior que o CAC. Se os três estiverem em ordem, o terreno é seguro para contratar.
A estrutura inicial recomendada é de três estagiários como SDRs, com o fundador atuando como closer. Todo mundo presencialmente, no mesmo espaço. Na contratação, aplique o teste de coachability e descarte candidatos com histórico de empregos curtos. Defina o modelo de comissionamento antes de contratar, nunca use porcentagem da carteira, e coloque Spin Selling como leitura obrigatória.
O resultado esperado nos primeiros meses não é um time que fecha vendas sozinho. É um time que qualifica bem, agenda bem e aprende rápido. A venda madura vem depois, quando o processo está rodando e o fundador pode começar a se afastar do ciclo de fechamento.
Quem quiser entender melhor como precificar o SaaS antes de estruturar as vendas pode ler o artigo sobre como cobrar mais pelo seu software, que trata da estratégia de precificação que sustenta margens saudáveis para suportar uma estrutura comercial.
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