Quando o Uber chegou ao Brasil, os taxistas foram às ruas para brigar com os motoristas de aplicativo. Parecia absurdo: pessoas comuns, sem qualificação específica, ocupando um espaço que sempre foi deles. Hoje, a mesma coisa está acontecendo com o desenvolvimento de software. Programadores experientes reagem com hostilidade quando alguém fala em criar um SaaS sem saber programar de verdade. E a reação, embora compreensível, não vai mudar o que está por vir.
O vibe coding, prática de usar inteligência artificial para gerar código mesmo sem conhecimento profundo de programação, está democratizando o desenvolvimento de software de uma forma que não tem volta. Advogados, contadores, gestores e empreendedores curiosos estão criando softwares que resolvem problemas reais e começando a ganhar dinheiro com isso. A questão não é mais "é possível?" e sim "como fazer direito?".
O Que É Vibe Coding e Por Que Está Mudando o Mercado de Software
Vibe coding é o uso de ferramentas de IA, como o Claude Code, o Lovable e o V0 by Vercel, para descrever o que você quer construir em linguagem natural e deixar a IA gerar o código. Você não precisa saber escrever uma linha de PHP ou entender o que é uma foreign key. Você precisa saber o que quer, para quem é e qual problema resolve.
Isso não é magia e não é atalho irresponsável. É uma mudança de paradigma semelhante ao que aconteceu quando surgiram os editores visuais de sites, os construtores de e-commerce como Shopify ou as plataformas no-code. Cada vez que a barreira técnica de entrada cai, mais pessoas conseguem transformar conhecimento de domínio em produto. Um fisioterapeuta que entende o problema dos seus pacientes pode agora construir um software de agendamento e controle de sessões melhor do que qualquer desenvolvedor que nunca pisou num consultório.
E quem já está no mercado de software como serviço sabe que o conhecimento de domínio sempre foi o ativo mais valioso. A tecnologia é o meio, não o fim.
A Prova Que Funciona: Caso Real Dentro de Uma Empresa de SaaS
No eGestor, empresa fundada por Deivison Alves Elias, o gerente de marketing, que não é programador, vibe codou um software completo usando Claude. Do início ao fim. E esse software está sendo vendido.
O processo foi planejado: Deivison e o gerente sentaram juntos para desenhar o software antes de escrever qualquer linha de código. Definiram qual banco de dados usar, qual linguagem de programação fazia mais sentido para o contexto da empresa, quais funcionalidades entravam na primeira versão. Depois disso, o gerente assumiu o desenvolvimento com a IA.
Quando o software ficou pronto, Deivison revisou o código com foco em segurança. Identificou pontos de melhoria, configurou o sistema de backup e organizou a estrutura do projeto. O resultado: um produto funcional, vendável e mantível pela equipe técnica da empresa.
Esse caso ilustra algo importante: vibe coding não precisa ser solitário. Se você tem acesso a alguém mais experiente em tecnologia, aproveite essa pessoa para o planejamento inicial e a revisão de segurança. O trabalho de desenvolvimento em si pode ser seu.
Ferramentas de Vibe Coding: O Que Usar e Por Quê
O mercado de ferramentas para vibe coding cresceu rapidamente. As principais opções para quem quer construir um SaaS são:
- Claude Code: a ferramenta mais recomendada por Deivison. Você instala no computador e começa a desenvolver em conversa com a IA. Funciona especialmente bem quando você já tem clareza sobre o que quer construir.
- Lovable: gera softwares funcionais rapidamente, mas usa React no front-end e Supabase como banco de dados. Para quem não tem equipe técnica familiarizada com essas tecnologias, isso pode ser um problema na manutenção futura.
- V0 by Vercel: focado em interfaces, bom para criar componentes visuais. Funciona bem em combinação com outras ferramentas.
A escolha da ferramenta deve considerar um fator que a maioria dos tutoriais ignora: quem vai manter o código no futuro? Se você tem uma equipe técnica ao redor, pergunte quais tecnologias eles dominam. Um código em PHP mantido por programadores PHP é infinitamente mais seguro do que um código em qualquer tecnologia que ninguém ao redor sabe ler.
A recomendação de Deivison para softwares internos é clara: HTML, CSS e JavaScript no front-end, PHP no back-end e SQLite como banco de dados. São tecnologias com enorme base de desenvolvedores disponíveis no mercado, documentação extensa e décadas de maturidade. Se amanhã a IA deixar de existir, um programador contratado consegue manter aquele código sem dificuldade.
Pieter Levels, o indie hacker mais bem-sucedido da internet segundo este perfil que publicamos, também defende PHP e SQLite para produtos enxutos. Não é coincidência.
A Regra Que Vai Definir o Sucesso do Seu Primeiro SaaS: Simplicidade
Imagina que você quer aprender a ser pedreiro. Você começa construindo um muro. Não é fácil, mas é factível. Agora imagina que, antes de aprender a erguer um muro direito, você decide construir um prédio de 20 andares. O prédio vai cair.
Vibe coding com a IA cria uma ilusão perigosa: como você pode pedir qualquer funcionalidade e a IA vai tentar entregar, parece que não há limite para o que você pode construir. Há. A complexidade acumulada em um software grande, mesmo que gerada por IA, vai criar problemas de manutenção, bugs encadeados e vulnerabilidades de segurança que você não vai conseguir resolver sem conhecimento técnico profundo.
O antídoto é a filosofia do livro Getting Real, do Basecamp: construa menos. Pegue um papel, escreva as funcionalidades do seu software e risque tudo que não é absolutamente essencial para resolver o problema central. Depois risque mais metade do que sobrou. O que ficou é o seu MVP.
No caso do software criado pelo gerente de marketing do eGestor, o instinto foi o mesmo de todo fundador de primeira viagem: querer adicionar mais funcionalidades. "Mas eu acho que os clientes vão querer isso." A resposta de Deivison foi direta: o software está vendendo, deixa exatamente como está. Espera o cancelamento acontecer de verdade antes de construir uma solução para um problema que talvez nem exista.
Adicionar funcionalidades antes de ter clientes pedindo por elas não é antecipar valor. É criar complexidade desnecessária em um software que ainda não tem base de usuários para validar as hipóteses. E num software desenvolvido por alguém sem experiência em arquitetura de software, isso pode criar um emaranhado impossível de manter.
Vintem: Um Caso de Vibe Coding com Estratégia de Negócio
O Vintem é um software de controle financeiro, contas a pagar e receber, desenvolvido por Deivison via vibe coding. Foi feito em Python, compilado como executável (.exe) para instalação no Windows e está disponível gratuitamente na Microsoft Store.
O detalhe mais importante do Vintem não é o software em si: é a estratégia por trás dele. O objetivo nunca foi criar mais um produto competindo no mercado de gestão financeira. O objetivo foi criar uma isca digital.
Usuários que baixam o Vintem entram em contato com o universo do eGestor. Em algum momento, esses leads vão receber uma proposta: "Tenho um software mais completo, com controle financeiro, controle de estoque, emissão de nota fiscal eletrônica, controle de vendas e ordem de serviço. Quer conhecer?" A conversão parte de alguém que já confia no produto gratuito.
Quando Deivison lançou o Vintem, recebeu críticas imediatas. O site está feio. O layout do software parece de 2010. A resposta foi propositalmente indiferente a essas críticas. O objetivo não era criar um software perfeito. Era lançar, ver se havia demanda, entender o comportamento dos usuários e melhorar com o tempo.
Essa é a filosofia que ele chama de "Hermes e Renato": lembra como eram feios os programas daquela época? Não importava. O que importava era lançar, aparecer, existir. A perfeição viria depois, se o mercado pedisse. Se o software ficasse impecável desde o início, dois problemas surgiriam: primeiro, você teria gasto meses polindo algo que talvez ninguém quisesse. Segundo, um software gratuito e perfeito dificilmente converte para um software pago, porque tira o incentivo de upgrade.
Isso conecta com uma ideia central em negócios de software: um produto que já funciona e tem usuários reais vale muito mais do que um projeto perfeito que nunca foi lançado. Há exemplos de SaaS bilionários construídos por uma única pessoa que começaram exatamente assim.
Quer viver de SaaS? Aprenda a criar e escalar produtos SaaS com quem já viveu isso na prática.
Conheça o Vivendo de SaaS →Segurança: O Risco Real que Você Não Pode Ignorar
Existe um caso que circulou no Twitter que serve de aviso para qualquer pessoa que quer lançar um SaaS vibe codado. Um desenvolvedor criou um software, lançou publicamente e tinha chaves de API do Supabase expostas de forma aberta no código. Em pouco tempo, pessoas conseguiram acesso aos dados de todos os usuários cadastrados.
Segurança é o principal ponto de atenção no vibe coding. A IA não vai necessariamente priorizar práticas de segurança se você não pedir. E como você provavelmente não sabe o que não sabe sobre segurança, pode não nem perceber o que faltou perguntar.
As práticas mais importantes, segundo Deivison:
- Arquivo do banco de dados fora do diretório público: se o seu banco SQLite estiver na raiz do projeto, qualquer pessoa que descobrir o nome do arquivo (por exemplo, banco.db) pode digitá-lo na URL e baixar todos os seus dados. O banco precisa ficar em um diretório que não seja acessível via browser.
- Nunca expor o CLAUDE.md publicamente: esse arquivo pode conter chaves de API, informações de configuração e outros dados sensíveis. Configure o servidor para bloquear o acesso direto a esse tipo de arquivo.
- Comece na rede local: se o software é para uso interno ou para um grupo pequeno de testadores, coloque-o em um servidor na rede local antes de expô-lo à internet. Isso reduz drasticamente a superfície de ataque enquanto você ainda está aprendendo.
- Use tecnologias que sua equipe conhece: quanto mais exótica a stack tecnológica, mais difícil é encontrar e corrigir problemas de segurança. PHP, SQLite e HTML/CSS/JS têm décadas de documentação sobre vulnerabilidades conhecidas e como evitá-las.
- Peça para a IA auditar o código: antes de lançar, pergunte diretamente ao Claude: "Quais são as falhas de segurança deste software?" Você vai se surpreender com o que ele encontra. Deivison fez isso com um projeto seu e a IA identificou imediatamente que o banco de dados SQLite estava no diretório principal do projeto, problema simples de resolver mas que poderia ter passado despercebido.
Vale lembrar que o debate sobre responsabilidade nesse tipo de incidente é complexo. Há quem argumente que o Supabase, por facilitar demais a configuração, carrega parte da culpa nesses vazamentos. Independente disso, a responsabilidade prática de verificar a segurança do que você está colocando no ar é sempre sua.
Use o Que Já Existe: Open Source e APIs de Terceiros
Um dos erros mais comuns de quem está começando a vibe codar é querer construir absolutamente tudo do zero. Isso quase sempre leva a projetos que ficam grandes, lentos e cheios de bugs, especialmente quando o problema que você está tentando resolver já foi solucionado por outras ferramentas.
Imagine que você quer construir um software que corta vídeos. Você poderia pedir para a IA gerar todo o código de processamento de vídeo. Ou poderia descobrir que o FFmpeg, uma ferramenta open source e gratuita, já faz isso com maestria. É só instalá-la no servidor e passar os parâmetros certos. A IA pode construir a interface gráfica para você. O trabalho pesado de processamento de vídeo já está resolvido.
A mesma lógica se aplica a APIs pagas. Para o módulo de distribuição de conteúdo em redes sociais, Deivison usou a API da Late, uma plataforma que recebe o conteúdo e distribui automaticamente para Instagram, YouTube, TikTok e outras redes. Sem essa escolha, ele teria que desenvolver e manter integrações separadas com cada rede social, cada uma com suas próprias regras, formatos e mudanças frequentes de API.
Antes de pedir para a IA construir uma funcionalidade complexa, faça duas perguntas:
- "Existe alguma ferramenta open source que já resolve isso?"
- "Existe uma API, gratuita ou paga, que já faz exatamente isso?"
Muitas vezes a resposta vai ser sim para uma das duas. E usar o que já existe não é uma solução de segunda classe: é engenharia inteligente. Inclusive, há toda uma estratégia de negócio baseada nisso, que já detalhamos no artigo sobre como criar um SaaS lucrativo com arbitragem de APIs. A Replicate.com, por exemplo, é um repositório inteiro de modelos de IA prontos para consumo via API.
Lance Devagar: Valide Antes de Escalar
O mesmo Twitter que inspirou este artigo tem vários exemplos do que não fazer ao lançar um software vibe codado. Um deles: anunciar o lançamento com tom provocativo, convidar programadores experientes para testar e achar que o barulho vai gerar tração positiva. Resultado previsível: pessoas com conhecimento técnico e motivação para provar um ponto encontraram as falhas de segurança antes que você tivesse chance de corrigi-las.
Lançar um software não é o mesmo que anunciar uma provocação. O processo correto é o oposto do espetacular: mostre o software para algumas pessoas de confiança primeiro. Venda para um grupo pequeno. Aprenda com os primeiros usuários. Corrija os problemas que aparecerem. Só depois escale a divulgação.
Esse processo tem uma vantagem adicional: você vai descobrir se o problema que você acha que está resolvendo é o mesmo problema que seus usuários realmente têm. Muitas vezes não é. E é muito mais fácil corrigir isso com três usuários do que com trezentos.
A filosofia é a mesma que move qualquer bom negócio de software bootstrap: crescer com base em dados reais, não em expectativas. Propaganda paga, campanhas grandes, divulgação massiva: essas coisas têm lugar, mas não antes de você ter um produto que funciona e usuários que validaram isso com dinheiro ou uso consistente.
E Se Você Não Se Sentir Seguro para Publicar?
Existe um caminho intermediário que muita gente ignora: vibe codar o software, mostrar para potenciais clientes, mas ainda não publicar para o mundo.
Um protótipo funcional gerado por IA tem valor enorme para validar demanda. Você consegue demonstrar as funcionalidades, simular o fluxo de uso e perguntar diretamente: "você pagaria por isso?" Esse tipo de validação, com o produto na frente do cliente, é muito mais poderosa do que qualquer pesquisa de mercado.
Se a validação for positiva, aí você busca um desenvolvedor experiente. Não necessariamente para jogar o código fora, mas para revisá-lo, reforçar a segurança, refatorar o que precisa e colocar o produto em produção com confiança. O código vibe codado serve como especificação viva: o desenvolvedor já vê o que você quer construir, em vez de trabalhar com um documento de requisitos abstrato.
Esse processo tende a ser mais barato e mais preciso do que contratar um desenvolvedor do zero. Você entra na conversa com um produto que já funciona, já foi testado com usuários reais e já gerou feedbacks concretos. O desenvolvedor tem um ponto de partida claro.
Vibe Coding Não É Para Todo Software, Mas É Para Muitos
Vibe coding tem limites reais. Sistemas críticos de saúde, infraestrutura bancária, softwares com requisitos regulatórios complexos: esses ambientes ainda exigem engenheiros experientes com responsabilidade clara sobre cada linha de código.
Mas para a maioria dos problemas de negócio que existem no mercado, especialmente para o universo de MicroSaaS e softwares verticais para nichos específicos, vibe coding com planejamento e cuidados básicos de segurança é não só viável como estrategicamente interessante. Há pessoas ganhando muito dinheiro com softwares que não passariam em um code review de uma big tech, e que não precisam passar.
Muito se fala sobre se o SaaS morreu com a chegada da IA. A realidade que está se desenhando parece ser o oposto: a IA está multiplicando o número de pessoas capazes de construir e lançar softwares, o que vai gerar mais produtos, mais nicho e mais oportunidade para quem entender o jogo cedo. E o jogo, como sempre, é sobre resolver problemas reais para clientes reais, de forma simples, rápida e sustentável.
Sobre esse ponto, vale a reflexão de Deivison: ele programa desde 1994 e ainda assim usou vibe coding para construir o Vintem. Não porque não sabe programar, mas porque vibe coding é mais rápido para prototipar, mais barato para validar e suficiente para o objetivo que tinha em mente. Se serve para quem tem décadas de experiência, pode servir para você também.
Por Onde Começar Agora
- Defina o problema antes de pensar na solução: qual dor específica você quer resolver? Para quem? Em que contexto? Escreva isso em uma frase.
- Liste as funcionalidades no papel: depois risque tudo que não é essencial para a primeira versão. Seja brutal.
- Escolha a tecnologia com base em quem vai manter: se você tem acesso a um desenvolvedor PHP, faça em PHP. Se a empresa ao redor usa Python, faça em Python. Facilite a manutenção futura.
- Construa com Claude Code ou a ferramenta que melhor se adapta à sua stack: peça para a IA também gerar os testes e explicar as decisões de arquitetura.
- Antes de lançar, peça para a IA auditar a segurança: pergunte explicitamente quais são as vulnerabilidades. Corrija o que for possível.
- Mostre para 5 pessoas antes de mostrar para 500: aprenda com os primeiros usuários antes de escalar.
- Lance imperfeito. Melhore com dados reais.
Não é fácil. Vai ter problemas. Alguns clientes vão cancelar, algumas funcionalidades vão falhar, alguma coisa de segurança vai passar. Isso é normal em todo produto de software, desenvolvido por qualquer pessoa. A diferença entre quem constrói e quem fica assistindo não é a ausência de problemas: é a disposição de resolver os problemas que aparecem e continuar.
A pergunta certa não é "será que eu sou capaz de fazer isso?". É "qual problema eu conheço bem o suficiente para construir uma solução melhor do que qualquer programador que nunca viveu esse problema?"
Se você conhece esse problema, você tem o ativo mais importante. O código, hoje, a IA resolve.
Gostou do conteúdo? Descubra como construir negócios SaaS lucrativos com mentoria especializada.
Acessar o Vivendo de SaaS →