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21 Princípios para Founders de SaaS: Lições do Y Combinator Aplicadas ao Brasil

👤 Deivison 📅 Jul 17, 2023 ⏱ 13 min de leitura

Sam Altman, enquanto era CEO do Y Combinator, um dos principais aceleradores de startups do mundo, responsável por empresas como Airbnb, Dropbox e Stripe, compilou 21 princípios para fundadores de startups. Deivison Alves Elias, do canal Vivendo de SaaS, revisitou esses princípios em profundidade, comentando cada um deles com a visão de quem está na trincheira do SaaS brasileiro há mais de 15 anos. Nem todos os princípios recebem concordância absoluta, mas todos provocam reflexão importante.

Princípio 1: Faça Algo que os Usuários Amem

Não basta criar um produto de que as pessoas gostem. Elas precisam amá-lo a ponto de recomendá-lo espontaneamente para amigos e colegas. Esse é o sinal mais claro de que você está no caminho certo. O Dropbox é o exemplo clássico: quando foi lançado, pessoas que nunca teriam divulgado um software saíram espalhando o produto porque ele resolvia uma dor real de um jeito elegante.

Construir um produto assim não é uma questão técnica. Não é sobre escolher a melhor linguagem de programação ou o banco de dados mais moderno. Tem muito mais a ver com usabilidade, simplicidade e entendimento profundo das dores do cliente. Um software tecnicamente impecável, mas difícil de usar, não será amado. Um software simples, bonito e que resolve um problema com precisão, pode conquistar clientes fiéis que se tornam vendedores da marca.

Princípio 2: A Realidade do Trabalho Duro

Startups exigem dedicação intensa, especialmente nos estágios iniciais. Diferente de produtos digitais que prometem resultados rápidos, um SaaS leva tempo para criar base de clientes, refinar produto e tornar o negócio sustentável. O retorno pode ser muito maior do que qualquer infoproduto, mas não chega em sete dias.

Deivison reforça que não conhece nenhuma pessoa de sucesso que não tenha trabalhado muito, pelo menos no início da empresa. O glamour dos filmes sobre startups, com cenas de código sendo escrito furiosamente e usuários aparecendo aos milhões da noite para o dia, apaga a parte tediosa: ligar para clientes que não querem comprar, ajustar o produto depois de um feedback negativo, enfrentar meses de crescimento lento enquanto todos ao redor parecem prosperar mais rápido.

Princípio 3: A Importância da Grandeza

Uma grande ideia por si só não basta. O sucesso em startups exige uma combinação de vários elementos funcionando simultaneamente: uma ideia relevante, um mercado grande, uma equipe comprometida, um produto que resolva problemas reais e uma execução disciplinada. Falhar em qualquer um desses elementos compromete os demais.

Na prática, isso significa que o fundador precisa parar de pensar só no produto e começar a pensar no negócio como um sistema integrado. Quem vai compor a equipe? Qual é o tamanho real do mercado? A execução de vendas está à altura da qualidade do produto?

Princípio 4: Comece com o Porquê

Um produto cujo propósito não consegue ser explicado em uma frase tem um problema sério. Quando o fundador demora cinco minutos para explicar por que alguém precisaria usar seu software, isso geralmente indica que o problema que ele resolve não é tão claro ou urgente quanto parece.

Deivison cita um caso próximo: um sócio que desenvolveu um aplicativo genuinamente interessante, mas que exige uma explicação longa para que as pessoas entendam sua utilidade. Sem um slogan claro, sem um posicionamento imediato, o produto não decola, mesmo tendo pessoas interessadas quando compreendem a proposta. Comece com o porquê: por que essa ferramenta precisa existir? Que dor ela resolve de forma que ninguém mais resolve?

Princípio 5: Construindo um Ótimo Produto

O produto está no centro de qualquer negócio SaaS. Sem um produto que as pessoas queiram usar e continuar usando, crescimento e retenção são quase impossíveis. Uma observação importante de Deivison: no Brasil, o mercado ainda não é tão competitivo que você não consiga crescer com um produto mediocre. Mas isso está mudando. O mercado brasileiro de SaaS está se profissionalizando, e no futuro apenas produtos excelentes vão conseguir manter crescimento consistente.

Princípio 6: Construindo um Mecanismo de Melhoria Contínua

Ouvir feedback dos usuários e iterar constantemente é o que transforma um produto bom em um produto excelente. O conceito é parecido com o PDCA: planejar, fazer, checar e agir. Pequenas melhorias acumuladas ao longo do tempo geram crescimento exponencial.

Um erro que Deivison confessa ter cometido: depois de lançar um produto, focar tanto em marketing e vendas que o produto para de evoluir. O mercado muda, surgem novas necessidades dos clientes, os concorrentes avançam, e se o produto não acompanha, o negócio estagna. A conversa constante com clientes e o compromisso com melhorias são não negociáveis.

Princípio 7: O Poder das Ações Não Escaláveis

No início, faça coisas que não conseguirá fazer quando crescer. Visite clientes pessoalmente. Sente do lado deles e observe como eles tentam resolver o problema que seu software vai resolver. Faça as primeiras vendas você mesmo, mesmo que eventualmente contrate vendedores.

O Airbnb é o exemplo mais famoso: nos primeiros meses, os fundadores visitavam pessoalmente os anfitriões, levavam câmeras profissionais e fotografavam os imóveis para deixar os anúncios mais atrativos. Era impossível escalar isso, mas foi o que fez o negócio funcionar. O aprendizado obtido com essas ações não escaláveis é insubstituível e vai informar toda a estratégia posterior.

Princípio 8: Buscando Projetos Interessantes

As melhores ideias para startups surgem naturalmente quando você está cercado de pessoas inteligentes e trabalhando em algo que genuinamente te interessa. Não force uma ideia só porque ela parece lucrativa. Jim Collins, em "Empresas Feitas para Vencer", argumenta que juntar as pessoas certas é mais importante do que ter a ideia certa: com a equipe certa, a ideia emerge.

Deivison encontrou sua trajetória assim: a paixão por gestão de empresas levou ao eGestor. A experiência acumulada com SaaS levou ao Vivendo de SaaS. Nenhum dos dois foi calculado friamente como oportunidade de mercado pura: ambos nasceram de uma combinação de competência e paixão genuína.

Princípio 9: A Função do CEO é Fazer a Empresa Vencer

O trabalho do fundador não é programar, não é varrer o escritório, não é fazer o atendimento ao cliente. Claro que no início você vai fazer tudo isso, porque não há outra escolha. Mas o papel estratégico do CEO é identificar as oportunidades mais importantes e guiar a empresa em direção a elas.

O risco é se apegar demais a uma função específica: o fundador que é programador e continua passando horas desenvolvendo funcionalidades quando deveria estar pensando em estratégia de mercado. Às vezes, o trabalho mais valioso do CEO é simplesmente sentar e pensar, observar concorrentes, conversar com clientes e tomar decisões de direção, sem produzir nada tangível.

Princípio 10: Construindo uma Religião

Quando um fundador demonstra paixão genuína pelo que faz, isso se torna contagioso. A equipe se motiva com uma visão que vai além de cumprir tarefas diárias. Os melhores talentos escolhem trabalhar numa empresa com missão apaixonante em vez de uma que paga mais mas não inspira.

Deivison tem uma ressalva: paixão sem pragmatismo pode virar obsessão irracional. Mas o princípio fundamental é válido: se você mesmo não está entusiasmado com o que está construindo, é muito difícil convencer outras pessoas a embarcarem na jornada.

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Princípio 11: Evitando o Modo Herói

Muitos fundadores, especialmente no início, acreditam que só eles conseguem fazer as coisas direito. Essa mentalidade, que Altman chama de "modo herói", leva ao esgotamento e impede o crescimento. Delegar é necessário, e delegar bem exige contratar bem.

Deivison reconhece que já teve essa mentalidade. Contratava estagiários que usavam a empresa como trampolim, reforçando a crença de que ninguém prestava. Com o tempo, ao melhorar o processo de contratação e encontrar pessoas certas, percebeu que havia excelentes profissionais dispostos a assumir responsabilidades com qualidade superior à dele em certas áreas. Liberar espaço para que essas pessoas operem é o que permite ao CEO focar no que realmente importa.

Princípio 12: Visando um Monopólio

Monopólio soa como palavra feia, mas do ponto de vista do fundador, o objetivo é construir algo tão bom, em um nicho tão bem definido, que os concorrentes não consigam copiar facilmente. O Google conseguiu isso com buscas: era tão superior que eliminou praticamente toda a concorrência. Depois veio o Gmail, que oferecia um gigabyte de armazenamento quando o Yahoo Mail dava megabytes.

Para founders de SaaS, isso significa: domine seu nicho antes de se expandir. Seja a referência absoluta para o seu ICP. Torne-se tão profundo no segmento que qualquer concorrente que tente entrar precise de anos para chegar ao seu nível de conhecimento e relacionamento com o cliente.

Princípio 13: Selecionando um Mercado Grande e em Crescimento

Não basta ter um produto excelente se o mercado está estagnado ou encolhendo. A recomendação prática é usar o Google Trends para verificar a tendência de buscas do mercado que você quer entrar. Um software para energia solar, por exemplo, está em um mercado claramente em crescimento. Um software para máquinas de escrever, evidentemente não.

Deivison reconhece ter tido sorte com o eGestor: entrou no mercado de software de gestão para pequenas empresas nas nuvens quando esse mercado estava apenas começando. A obrigatoriedade de documentos fiscais eletrônicos pelo governo acelerou o crescimento do setor. Identificar mercados em expansão no início aumenta muito as chances de sucesso.

Princípio 14: Pensando a Curto Prazo no Início

Ter uma visão de longo prazo é importante, mas uma startup em estágio inicial precisa sobreviver hoje antes de conquistar o futuro. Isso significa focar em pagar as contas, fechar os primeiros clientes e tornar o negócio sustentável antes de pensar em escala global. A visão inspira, mas são as ações de curto prazo que mantêm a empresa viva.

Princípio 15: O Poder do Otimismo

Founders passam por uma quantidade enorme de problemas, rejeições e incertezas. Sem otimismo genuíno, é muito difícil atravessar essas fases. Deivison foi pessimista na adolescência e transformou essa característica ao longo dos anos, construindo uma mentalidade de que quase todo problema tem solução se você tiver saúde e persistência.

A prática de jiu-jitsu, que ele cita repetidamente, é uma metáfora que usa: na arte marcial, você resolve problemas sob pressão em tempo real. Se um estrangulamento não está completamente encaixado, ainda há uma saída. Essa mentalidade de buscar a saída possível em vez de focar no aperto é o que diferencia founders que persistem dos que desistem.

Princípio 16: Abraçando a Persistência

Quando surgem problemas, a tentação é pivotar imediatamente, mudar de direção, tentar algo completamente diferente. Muitas vezes, a causa raiz do problema não foi identificada, e a mudança rápida apenas esconde o sintoma. Persistência significa investigar o problema com calma, encontrar a causa raiz e corrigi-la, antes de concluir que o caminho estava errado.

O CEO precisa ser a "rocha" da empresa: estável diante do caos, pensando com clareza quando todos ao redor estão ansiosos. Isso não significa rigidez, mas sim a capacidade de agir com critério mesmo sob pressão intensa.

Princípio 17: Contratar por Aptidão

Nos estágios iniciais de um SaaS, talento bruto e atitude positiva frequentemente superam anos de experiência específica. Você precisa de pessoas que resolvam problemas, se adaptem rapidamente e não desanimem na primeira dificuldade.

O eGestor, localizado em Santa Maria, cidade de 300 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul, sempre teve dificuldade em atrair profissionais experientes de mercado. A solução foi desenvolver excelência em treinar pessoas sem experiência. Hoje, os melhores vendedores da empresa não são os "vendedores natos" extrovertidos e faladores, mas pessoas quietas e metódicas que aprenderam bem o processo.

Princípio 18: Mantendo o Momento

Na física, um objeto em movimento tende a continuar em movimento. Da mesma forma, uma empresa com impulso é mais fácil de manter em crescimento do que uma que perdeu ritmo. O trabalho do CEO é manter o momento: garantir que a equipe esteja energizada, que os resultados positivos sejam celebrados e que as pequenas vitórias acumuladas mantenham a motivação coletiva alta.

Princípio 19: Definindo uma Estrela do Norte

Toda a equipe precisa se alinhar em torno de uma métrica principal que represente saúde e crescimento do negócio. No eGestor e no Vivendo de SaaS, essa métrica é o MRR, a Receita Recorrente Mensal. Todos os setores têm acesso ao próprio MRR e ao objetivo de crescimento. Isso elimina ambiguidades sobre o que constitui sucesso e direciona o esforço de toda a equipe para o mesmo resultado.

Princípio 20: Sem Desculpas

Fundadores resilientes não terceirizam a culpa. O governo tem impostos altos? Sim. O mercado tem dificuldades? Às vezes. Mas se o mercado está crescendo 5% e sua empresa não está crescendo pelo menos tanto, o problema está dentro da empresa, não fora dela. Se os funcionários não executam bem, o problema pode estar na contratação errada ou na liderança insuficiente. Trazer a responsabilidade para si, em vez de buscar culpados externos, é o que permite identificar e resolver os problemas reais.

Princípio 21: Definindo Missão e Valores

A cultura de uma empresa precisa ser estabelecida desde o início. Novos membros da equipe precisam entender e abraçar a missão e os valores da empresa para trabalhar de forma coesa e alinhada. Isso significa que o fundador precisa articular claramente o propósito da empresa, o tipo de cliente que serve, o impacto que quer gerar e os valores que vão guiar as decisões difíceis.

Um planejamento estratégico documentado e compartilhado com a equipe não é burocracia corporativa: é o instrumento que garante que todos estejam trabalhando na mesma direção, especialmente nos momentos em que o caminho não está claro.

O Que Esses Princípios Têm em Comum

Analisando os 21 princípios em conjunto, alguns temas se repetem com força: a centralidade do produto excelente, a importância das pessoas certas, a necessidade de paixão genuína e a responsabilidade do fundador como o motor que mantém tudo funcionando.

Para o contexto brasileiro, onde o mercado de SaaS ainda está em fase de amadurecimento e profissionalização, esses princípios são especialmente relevantes. Há espaço para crescer mesmo com produtos imperfeitos hoje, mas esse espaço vai se estreitar. Quem construir fundações sólidas agora, seguindo princípios como esses, vai estar em posição de vantagem quando a competição se intensificar.

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