Em uma das entrevistas mais ricas do canal Vivendo de SaaS, Deivison Alves Elias conversou com André Lado Cruz, fundador do Digital Manager Guru, uma plataforma de orquestração de serviços digitais e pagamentos que movimenta mais de 2 bilhões de reais por ano no Brasil, operando a partir de Portugal, com equipe distribuída entre os dois países. A conversa trouxe lições profundas sobre produto, modelo de negócio, expansão internacional, gestão remota e os erros mais comuns dos empreendedores de SaaS.
O que é o Digital Manager Guru
O Digital Manager Guru nasceu como uma plataforma de métricas e gestão de negócios digitais voltada inicialmente para o mercado de produtos digitais em plataformas como Hotmart e Monetizze. Mas ao longo da evolução do produto, a empresa tomou um caminho diferente e muito mais estratégico: tornou-se um hub de tecnologia e orquestração de serviços para quem vende online.
Em vez de processar pagamentos diretamente ou oferecer uma área de membros própria, o Guru conecta os serviços que o vendedor já usa ou quer usar: processadores de pagamento (como Pagarme, Mercado Pago, Adyen, Cielo), ferramentas de e-mail marketing (como Mailchimp e HubSpot), emissores de nota fiscal e outros serviços. Tudo passa pelo Guru, que padroniza as informações e as devolve sempre no mesmo formato, independentemente de qual serviço está sendo usado.
Como André explicou no vídeo, a analogia mais próxima é a de um "Zapier com esteroides", mas com uma orquestração muito mais especializada para o contexto de vendas digitais, checkouts e assinaturas recorrentes.
O diferencial que separou o Guru da concorrência
O ponto que André Lado Cruz destacou como o maior diferencial do Guru em relação a plataformas como Hotmart, Monetizze e outras é simples e poderoso: o Guru não cobra percentual sobre as vendas.
O modelo de negócio é de mensalidade fixa. Enquanto as plataformas tradicionais de produtos digitais cobram entre 5% e 10% de comissão sobre cada venda, o Guru cobra um valor mensal fixo, independentemente do volume transacionado. André mencionou um caso emblemático: um cliente que pagava 65 euros por mês ao Guru enquanto rodava 2 milhões em vendas. Para esse cliente, a economia em relação ao modelo de revenue share foi substancial.
Esse posicionamento criou uma vantagem competitiva que, segundo André, nem os grandes concorrentes conseguem replicar facilmente: para competir com o Guru em preço, eles teriam que abrir mão da principal fonte de receita deles.
A Origem: de Métricas para Afiliados a Hub de Orquestração
A jornada de André com tecnologia e pagamentos começou em 2005, quando ele já trabalhava com meios de pagamento no Brasil em um contexto onde o mercado ainda era dominado por poucas empresas como Braspag e VisaNet, antes de existir a competição que existe hoje. Ele tem amizade com os fundadores da Braspag, André Street e Eduardo Pontes, que posteriormente fundaram a Stone.
Em 2015 e 2016, André teve contato com o mercado de produtos digitais como afiliado. A história do Guru propriamente dito começou em 2017, quando ele foi morar em Portugal e, querendo se reposicionar no mercado, comprou um curso de desenvolvimento com Laravel para aprender a programar em PHP. Dessa brincadeira nasceu o Guru.
O produto inicial resolvia uma dor que André tinha como afiliado: não havia como centralizar as informações de vendas feitas em diferentes plataformas (Hotmart, Monetizze, Eduzz) em um único lugar. A partir dessa dor inicial, o produto foi evoluindo conforme os clientes traziam novos problemas:
- Sistema de rastreamento e análise de conversão próprio, que André considera um dos melhores do mercado
- ROI em tempo real, cruzando dados de campanha com dados de vendas e rastreamento
- Checkout próprio, lançado em 2018, que conecta diretamente com as processadoras de pagamento sem intermediários
- Motor de assinatura recorrente, lançado em abril de 2021, que hoje representa quase 45% de todo o volume transacionado na plataforma
- Integração com DocSign para envio automático de contratos no momento da venda
Crescimento e Números: do Quase Falimento ao Bilhão
O caminho do Guru não foi linear. Em 2019, a empresa recebeu investimento da Portugal Ventures. Em 2021, veio o momento mais crítico: a empresa estava muito exposta ao mercado de dropshipping, exatamente o mercado que mais sofreu naquele período. O motor de recorrência foi lançado naquele mesmo ano como uma virada estratégica.
André descreveu 2021 como o "tipping point" da empresa: o momento em que eles quase morreram, mas conseguiram virar e começar a crescer consistentemente. Hoje o Guru está "azul todo mês", segundo André.
Os números que ele compartilhou na entrevista são expressivos:
- No ano anterior ao vídeo, os clientes do Guru movimentaram 900 milhões de reais
- No ano corrente à gravação, a projeção era superar 2 bilhões de reais em volume de transações apenas no Brasil
- Taxa de conversão do checkout: 73% no desktop e mais de 80% na média geral da plataforma
- Quase 45% de todo o volume já é gerado por assinaturas recorrentes
O Cliente Ideal e a Tese de Crescimento Estratégico
André revelou uma visão de negócio que vai muito além de simplesmente atender os clientes diretos. Desde o início, a tese do Guru não foi construída para servir ao cliente final, mas sim para ser comprada por players maiores que já têm bases de clientes estabelecidas.
A lógica é a da convergência de serviços: bancos, processadoras de pagamento, operadoras de telefonia e outras empresas com grandes bases de clientes estão cada vez mais adicionando camadas de serviço para não perder os clientes para concorrentes. Um banco que já tem a conta digital de um vendedor vai querer oferecer também o checkout, a gestão de assinaturas e a emissão de nota fiscal. Para isso, ele precisa de um produto como o Guru.
André mencionou o caso das operadoras Oi e Claro, que revendem o eGestor para seus clientes empresariais como um serviço de valor agregado. O raciocínio é o mesmo: quem tem a base de clientes vai querer oferecer mais serviços para ela, e quem tem o produto se torna parceiro estratégico desse distribuidor.
Na prática, essa tese se materializa assim: as processadoras de pagamento recomendam o Guru para seus clientes, pois confiam que o Guru não vai tentar migrar os clientes de uma processadora para outra de forma agressiva. Essa independência e postura ética criaram um relacionamento diferenciado com todos os processadores do mercado.
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Conheça o Vivendo de SaaS →O cliente de hoje: acima de 50.000 reais por mês
O público atual do Guru são vendedores que já faturam acima de 50.000 reais por mês. Entre eles estão infoprodutores, produtores de conteúdo por assinatura (como o Brasil Paralelo, mencionado por André na entrevista), vendedores de produtos físicos e até empresas de SaaS que precisam de um motor de recorrência robusto sem precisar desenvolvê-lo internamente.
O cliente iniciante, que vai tentar fazer um lançamento de produto digital pela primeira vez, não é o público-alvo do Guru. E isso é uma decisão estratégica consciente, não uma limitação.
Geração de Leads e Canal de Vendas
André explicou que a principal fonte de novos clientes do Guru é a própria base de clientes existente, por meio de indicações. O nível de serviço elevado gera defensores naturais do produto.
Além disso, o Guru tem um relacionamento próximo com as processadoras de pagamento, que indicam o Guru para seus clientes. Esse canal funciona porque André visita pessoalmente todos os processadores duas vezes por ano, mesmo aqueles que raramente respondem durante o ano. A consistência nesses relacionamentos já trouxe resultados expressivos: um processador que em março já havia superado 50% do volume do ano anterior inteiro, e outro que em março já havia superado todo o ano anterior.
A estrutura de vendas inclui SDRs e closers trabalhando em modelo de Inbound. O processo é: lead entra, SDR contata, marca reunião com vendedor, vendedor fecha, time de sucesso do cliente faz o onboarding e acompanha a conta. O time de Outbound está sendo construído para dar mais independência ao volume de vendas.
Estrutura Interna e Gestão Remota
O Guru tem entre 31 e 32 pessoas, distribuídas entre Portugal e Brasil. A empresa opera 100% em home office. A equipe está organizada em quatro áreas principais:
- Desenvolvimento: backend, frontend e app (Flutter)
- Marketing: documentação, artigos e materiais
- Atendimento: dividido entre suporte e sucesso do cliente
- Comercial: SDRs e vendedores
André compartilhou a filosofia de gestão do Guru com muita transparência. A empresa contrata adultos, define expectativas claras para o primeiro, segundo, terceiro e quarto mês de cada novo colaborador e não pratica microgerenciamento. A comunicação é assíncrona por padrão, usando o Slack, e as reuniões acontecem quando há necessidade real, não por rotina.
Um caso concreto que André mencionou ilustra bem a cultura: um desenvolvedor que trabalha no horário das 8h às 17h de Portugal (três horas antes do horário do restante da equipe) por querer estar presente para o filho pequeno. André observou o comportamento antes de questionar e descobriu que esse era justamente o horário mais produtivo do profissional, por não ter interrupções. O resultado foi tão positivo que outro desenvolvedor adotou o mesmo horário.
Os Erros que André Mais Vê nos Empreendedores de SaaS
Ao final da entrevista, Deivison pediu que André compartilhasse as principais lições e erros que observa na comunidade de empreendedores de SaaS. As respostas foram diretas:
A síndrome do Mark Zuckerberg
O erro mais comum que André vê é o que ele chama de "síndrome do Mark Zuckerberg": o empreendedor que acha que tem a última Coca-Cola gelada do deserto, que desenvolveu o software revolucionário que vai mudar o mercado. A realidade é que o Facebook só é o Facebook, o Google só é o Google e o Twitter só é o Twitter por causa dos aprendizados ao longo de anos de adaptação. O produto inicial raramente é o produto certo.
Não saber quem realmente é o melhor cliente
André destacou um ponto fundamental: o maior erro do empreendedor é não saber quem realmente é o melhor comprador do seu produto. Muitas vezes, o cliente ideal não é o usuário final direto, mas um intermediário maior que tem acesso a uma grande base dos usuários finais. No caso do Guru, eles não construíram a plataforma para o infoprodutor individual, mas com a visão de que seriam adquiridos por um player maior (banco, processadora, plataforma) que os distribuiria para seus clientes.
O produto vai mudar, sempre
O produto que você lança não é o produto que vai ter sucesso. A trajetória do Guru passou do mercado de afiliados para o mercado de dropshipping, até chegar ao atual posicionamento como hub de orquestração focado em vendedores com volume acima de 50.000 reais por mês. Cada versão do produto foi moldada pelos aprendizados com clientes reais.
O deslumbramento mata negócios
André foi honesto ao admitir que passou por um período de estagnação em 2014 e 2015, quando estava financeiramente confortável e deu menos atenção ao produto. Segundo ele, aquele foi o período em que sua empresa poderia ter crescido muito mais e não cresceu. O deslumbramento, a sensação de que o jogo está ganho, é um dos maiores inimigos do crescimento sustentável.
Brasil é Grande o Suficiente: a Visão sobre Expansão Internacional
André tem uma visão clara sobre expansão internacional: o Brasil é um mercado gigantesco e a maioria dos empreendedores não está nem perto de esgotá-lo. Quando alguém lhe pergunta se deveria considerar uma aceleração na Europa com 30 clientes no Brasil, a resposta é direta: não.
A expansão do Guru para Europa e Estados Unidos está começando agora, com uma base muito mais sólida no Brasil e com um aprendizado específico sobre o mercado europeu: a Stripe, referência mundial em processamento de pagamento, é considerada cara na Europa em comparação com os processadores locais. Isso abre uma oportunidade para o Guru se posicionar como integrador de processadores locais europeus com a mesma facilidade que oferece no Brasil.
No momento da entrevista, André estava participando de uma aceleração na Espanha (La Lanzadera, do grupo Mercadona) e tinha chamadas agendadas com bancos espanhóis interessados na solução do Guru para seus clientes.
Uma Empresa Construída no Longo Prazo
A entrevista com André Lado Cruz no canal Vivendo de SaaS, conduzido por Deivison Alves Elias, é um exemplo raro de empreendedor que pensa estrategicamente em cada decisão. Desde a escolha de não cobrar revenue share (que os tornou economicamente mais eficientes e criou um GAP que a concorrência não consegue preencher facilmente) até a decisão de construir uma equipe remota distribuída entre dois países, cada escolha foi feita com consciência das consequências de longo prazo.
Para quem está construindo um SaaS hoje, as lições do Guru são valiosas: conheça seu verdadeiro cliente (que talvez não seja quem você imagina), construa um diferencial de negócio que a concorrência não consiga copiar facilmente, não se deslumbre com os primeiros resultados e saiba que o produto vai mudar muitas vezes antes de encontrar o market fit definitivo.
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