Montar uma fábrica de software é um sonho comum entre desenvolvedores que querem empreender. A ideia parece sedutora: pegar projetos de clientes, construir sistemas e receber por isso. Mas será que esse modelo de negócio realmente compensa quando comparado ao SaaS? No canal Vivendo de SaaS, Deivison Alves Elias debateu o tema com Lucas, fundador de uma fábrica de software com 11 programadores, para uma análise honesta de ambos os lados.
Por Que Deivison é Contra a Fábrica de Software
Deivison Alves Elias conta que também teve o sonho da fábrica de software quando jovem. A ideia de ter uma empresa desenvolvendo sistemas para outras empresas era o que imaginava para o futuro. A realidade foi bem diferente do sonho.
O primeiro problema é que cada software desenvolvido para um cliente vira um compromisso permanente. Deivison lembra que chegou a desenvolver um sistema para uma rádio local, de má vontade e com pouco capricho, achando que jamais precisaria tocá-lo novamente. Mais de três anos depois, o cliente bateu à porta pedindo manutenção. O software era tão ruim que ele nem acreditava que estivessem usando, mas estavam.
Essa é a realidade de qualquer fábrica de software: cada projeto entregue é um filho que você vai carregar por anos. Quanto mais clientes, mais sistemas para manter, mais dependências para gerenciar e mais telefones tocando com pedidos de suporte e ajustes.
O Recurso Mais Escasso: Hora de Programador
Na visão de Deivison, o recurso mais escasso de qualquer empresa de tecnologia não é dinheiro nem equipamento. É hora de programador. E na fábrica de software, você está vendendo exatamente isso, frequentemente a preços que não refletem o real custo e complexidade do trabalho.
Contratar e manter bons programadores está cada vez mais difícil. O mercado foi globalizado pelo home office, e os profissionais brasileiros passaram a competir por posições internacionais, com salários em dólar. Isso pressionou os salários locais para cima de forma consistente. Uma fábrica de software que depende de uma equipe grande de desenvolvedores está constantemente correndo atrás de talentos que, uma vez treinados, podem receber uma proposta melhor e sair.
No SaaS, é diferente: o eGestor tem mais de 100 pessoas, mas apenas uma pequena parte é de programadores. A maioria é equipe comercial, suporte e sucesso do cliente. O software cresce de forma incremental e controlada, sem a pressão de escalar a equipe técnica na mesma proporção do faturamento.
Os Problemas Estruturais da Fábrica de Software
Previsibilidade Zero
A fábrica de software depende de fechar novos projetos constantemente. Quando o pipeline está cheio, a equipe está sobrecarregada. Quando o pipeline está vazio, os programadores ficam ociosos e os custos continuam correndo. Não há recorrência estável como no SaaS.
Lucas confirma esse desafio: quando a equipe está alocada em clientes existentes e chega um novo projeto, é preciso fazer malabarismos para atender sem comprometer a qualidade. Se um cliente antigo cancelar no meio do processo de onboarding de um novo, o risco é demitir alguém recém-contratado para aquele projeto.
Dificuldade de Escalar com Lucratividade
Na fábrica de software, aumentar o faturamento quase sempre significa contratar mais programadores, o que aumenta custos de forma proporcional. A margem não melhora com escala, ao contrário do SaaS, onde um produto pode atender mil ou dez mil clientes com a mesma infraestrutura central e custo incremental baixo.
O modelo se assemelha a uma agência de marketing nesse sentido: você pode crescer em faturamento, mas cresce também em equipe e em risco, sem necessariamente melhorar a lucratividade por unidade de trabalho.
A Ilusão do Cliente que Sabe o que Quer
Um dos maiores problemas relatados por Lucas é que o cliente nunca sabe exatamente o que quer. Quando assina um contrato para um sistema completo, imagina que tem a solução clara na cabeça. Na prática, a medida que o desenvolvimento avança, surgem novos requisitos, mudanças de escopo e pedidos de ajuste que não estavam no contrato original.
A solução que Lucas adotou é trabalhar com metodologia ágil: entregar partes do software toda semana, em vez de prometer um pacote completo ao final de meses de desenvolvimento. Dessa forma, o cliente vê valor sendo entregue continuamente, participa do processo e consegue ajustar o rumo antes que o projeto fique longe do que realmente precisa.
O Que Lucas Defende na Fábrica de Software
Apesar dos desafios, Lucas apresenta argumentos reais em defesa do modelo. O principal é que a fábrica pode ser um ponto de partida para founders que ainda não têm capital para investir em SaaS, ou que não dominam o lado comercial do negócio.
Menos Necessidade de Máquina de Vendas no Início
Uma das objeções comuns de quem está começando é que não sabe vender. A fábrica de software consegue crescer inicialmente por indicações e projetos que caem no colo, sem a necessidade de uma equipe comercial estruturada. Isso pode ser uma vantagem para quem está dando os primeiros passos e ainda está aprendendo a empreender.
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Conheça o Vivendo de SaaS →O próprio Lucas reconhece que não se consideraria competente para montar uma operação de SaaS desde o início, justamente pela complexidade do processo comercial e de geração de leads. A fábrica foi o caminho que encontrou para começar a empreender dentro das suas capacidades do momento.
Oportunidade de Aprendizado e Geração de Capital
Trabalhar com múltiplos clientes em setores diferentes acelera o aprendizado sobre problemas reais de negócio. Cada projeto novo é uma imersão em um segmento diferente, o que pode ajudar a identificar oportunidades de mercado para um futuro produto próprio.
Lucas tem dois produtos que foram desenvolvidos para clientes mas têm potencial de ser transformados em SaaS: um sistema de sincronização entre plataformas e uma ferramenta de gestão de avaliações online, semelhante a um produto americano chamado Podium. O desafio é que ter o código não é suficiente: é preciso o conhecimento comercial para transformar isso em um produto com estratégia de vendas e marketing.
A Cultura da Empresa Como Diferencial
Uma fábrica de software pode criar um diferencial difícil de replicar: a cultura interna. Lucas investiu em um ambiente de trabalho que inclui psicóloga para a equipe, plano de carreira claro e projetos internos chamados de "playground", onde os programadores podem experimentar tecnologias novas sem a pressão de um cliente real.
Esses projetos internos servem a dois propósitos: desenvolver habilidades técnicas do time e criar ativos tecnológicos que podem ser aproveitados em projetos futuros ou transformados em produtos. É uma forma de manter a equipe engajada e reduzir o turnover, que é um dos maiores desafios estruturais do modelo.
Fábrica de Software vs. SaaS: As Principais Diferenças
Recorrência e Previsibilidade
O SaaS tem como principal vantagem a receita recorrente. Clientes que assinam continuam pagando mês a mês, e o MRR (Receita Recorrente Mensal) cresce de forma composta. Na fábrica, é preciso fechar novos contratos constantemente para manter o faturamento. Perder clientes na fábrica pode significar demitir pessoas. No SaaS, o impacto do churn é mais diluído e gerenciável.
Escalabilidade
No SaaS, crescer em receita não exige crescer proporcionalmente em equipe. O produto pode atender mais clientes com a mesma infraestrutura, melhorando as margens ao longo do tempo. Na fábrica, cada novo projeto exige mais horas de programador, que é o recurso mais caro e mais difícil de contratar.
Valuation e Atratividade para Investidores
Empresas SaaS são muito mais atrativas para investidores porque têm receita previsível, escalabilidade e podem ser vendidas sem que o fundador precise estar envolvido no dia a dia. Fábricas de software têm valuation muito menor porque dependem da equipe técnica e dos relacionamentos do founder para funcionar. Vender uma fábrica de software é muito mais complexo do que vender um SaaS.
Foco e Especialização
Deivison cita uma frase dos fundadores da HP: "Uma jovem empresa de talento tem muito mais possibilidade de quebrar por excesso de oportunidades do que por falta de clientes". A fábrica de software sofre exatamente desse problema: há sempre um cliente novo pedindo algo diferente, puxando a equipe para múltiplas direções. O resultado é que ninguém se torna realmente bom em nada específico.
O SaaS força o foco: você tem um produto para um público-alvo específico. Isso permite aprofundamento real no problema do cliente e na solução, criando uma vantagem competitiva que a fábrica raramente consegue construir.
Quando a Fábrica de Software Faz Sentido
Mesmo sendo crítico do modelo, Deivison reconhece que existem situações em que a fábrica pode ser uma escolha razoável:
- Como ponto de partida para quem está aprendendo a empreender e ainda não tem capital ou conhecimento comercial para SaaS.
- Para desenvolvedores que querem trabalhar por conta própria sem montar uma operação complexa de vendas e marketing.
- Como forma de gerar capital inicial enquanto o produto SaaS é desenvolvido em paralelo.
- Para founders que identificaram uma oportunidade específica de nicho com clientes dispostos a pagar bem por soluções customizadas.
O problema é quando a fábrica se torna um fim em si mesmo, sem uma visão de onde o negócio vai em cinco ou dez anos. Sem recorrência, sem escalabilidade e com dependência total da equipe técnica, o modelo tende a ser exaustivo para o founder.
O Caminho para Quem Está Começando
Para quem está avaliando por onde começar, Deivison tem uma sugestão clara: comece com um MicroSaaS. Um produto pequeno, simples, que resolve um problema específico e bem definido. Coloque no ar, encontre os primeiros clientes e valide se o mercado está disposto a pagar pela solução.
Se aparecer uma oportunidade de projeto na fábrica enquanto o SaaS não decola, tudo bem usar isso como fonte de renda. Mas mantenha o foco no produto que vai gerar recorrência. A faca e o garfo podem coexistir por um tempo, mas chega um momento em que é preciso escolher em qual ferramenta você vai investir toda a energia.
Lucas concorda: se fosse começar hoje, não iniciaria uma fábrica de software. Montaria um SaaS desde o início. A fábrica foi o caminho que encontrou dado seu ponto de partida, mas reconhece que o modelo SaaS oferece problemas mais fáceis de resolver a longo prazo, mesmo sendo mais difíceis de iniciar.
No final das contas, seja qual for o caminho escolhido, gestão é inescapável. Produto não é tudo. Processo de vendas, marketing, pessoas, financeiro: tudo isso vai precisar de atenção. Quem entende isso desde o início leva vantagem significativa, independentemente do modelo de negócio.
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