O pânico do "SaaS morreu" e por que você não deveria entrar nele
A cada nova revolução tecnológica, surge o mesmo coro apocalíptico: "agora sim, acabou". Com a ascensão da inteligência artificial generativa, o alvo da vez é o SaaS — Software as a Service. A narrativa é simples e sedutora: se qualquer pessoa pode usar IA para criar um software, por que alguém pagaria por um?
Deivison Alves Elias, fundador do eGestor e criador do canal Vivendo de SaaS, tem uma perspectiva diferente. Com 45 anos de idade e 32 anos trabalhando na frente de um computador, ele já viu esse filme antes — e sabe como termina.
"Eu não acho que seja catastrófico da maneira que as pessoas pintam. Normalmente não é exatamente como a gente imagina as coisas."
A tese dele é clara: o SaaS não vai morrer, vai se profissionalizar. E para provar isso, ele faz uma viagem no tempo até os anos 2000, quando outro mercado de tecnologia foi declarado "morto" — e as empresas que sobreviveram provam que a história se repete.
A lição dos anos 2000: quando hospedagem de sites "morreu"
No início dos anos 2000, todo nerd queria montar uma empresa de hospedagem de sites. Era o negócio da moda. Não existiam redes sociais — o Orkut só chegou em 2004, o Facebook só pegou no Brasil por volta de 2010. As pessoas navegavam na internet entrando em sites, usando buscadores como Google, Cadê, AltaVista e Yahoo.
A internet era cara e difícil. No interior do Rio Grande do Sul, onde Deivison Alves Elias morava, o acesso começou com internet discada, depois veio o ADSL. Para montar uma empresa de hospedagem, era preciso um link dedicado e um computador conectado 24 horas — algo caro e complexo.
Mas então tudo ficou fácil. O Linux se popularizou em servidores (e era gratuito). Surgiram painéis como o Plesk, que automatizavam a criação de domínios e contas. A internet ficou barata. E aí aconteceu o inevitável:
O mercado se canibalizou
Todo mundo montou uma empresa de hospedagem. Se não tinha servidor físico, comprava revenda da Locaweb ou de outra empresa e revendia como white label. O mercado ficou tão saturado que se você pesquisasse "hospedagem" no Google, não encontrava hotéis — só empresas de hospedagem de sites.
O consenso era: hospedagem de sites morreu. É commodity. Não dá mais dinheiro. Qualquer um faz.
Soa familiar?
Locaweb: do mercado "prostituído" ao IPO
Em meio a esse mercado que todos consideravam morto, uma empresa brasileira seguiu crescendo. A Locaweb, fundada em 1998, continuou investindo, profissionalizando sua operação e expandindo seus serviços.
Resultado? Em 2020, a Locaweb fez IPO — abriu capital na bolsa de valores. Uma empresa de hospedagem de sites, naquele mercado que todos diziam estar morto, se tornou uma empresa de capital aberto bilionária.
E não foi só ela. Hostinger, HostGator, todas crescendo, todas ganhando dinheiro. O mercado não morreu — ele se profissionalizou. Quem sobreviveu foi quem sabia distribuir e vender seu produto.
O paralelo direto com o SaaS atual
O grande medo das pessoas hoje é que a inteligência artificial vai permitir que qualquer um crie um software equivalente ao seu. Um "sobrinho que não sabe nada de tecnologia" vai usar IA para criar um concorrente do seu SaaS — e isso vai canibalizar o mercado.
Mas pense bem: isso não é exatamente o que aconteceu com a hospedagem de sites? Qualquer pessoa conseguia montar uma empresa de hospedagem. O mercado ficou lotado. E mesmo assim, as empresas profissionais cresceram.
A razão é simples: criar um produto é apenas uma fração do negócio. Distribuição, vendas, suporte, confiabilidade, marca — essas são as coisas que separam uma empresa de verdade de um projeto de fim de semana.
eGestor: crescendo contra todas as probabilidades
A trajetória do eGestor é um estudo de caso perfeito sobre resiliência no SaaS. Lançado oficialmente em 2009, o software de gestão para micro e pequenas empresas enfrentou uma lista intimidadora de concorrentes:
- ContaAzul — captou investidores pesados e despejou dinheiro em marketing, dominando a captação de leads do mercado
- MarketUp — apoiado pelo Sebrae, foi gratuito durante muito tempo
- Intuit/QuickBooks — a gigante americana comprou o ZeroPaper e lançou planos a partir de R$ 9,90/mês
- Sage — multinacional que entrou no mercado brasileiro
- Omie, Totvs, Linx — empresas bilionárias com recursos enormes
O eGestor cobrava cerca de R$ 100/mês, não tinha investidor externo, não tinha o "glamour" dos concorrentes financiados. Em 2011, uma pesquisa de mercado mostrou que poderia cobrar até R$ 500/mês — mas Deivison Alves Elias optou por manter o preço mais baixo, temendo a reação futura dos concorrentes.
"De verdade, tu investiria no eGestor? Sem investidor, mais caro, sem o glamour dos concorrentes. Mesmo assim, a minha empresa cresceu e continua crescendo mês a mês."
A conclusão é reveladora: preço não foi um problema. Gratuito não foi um problema. Concorrentes com investidor não foram um problema. O eGestor continua crescendo todos os meses, vendendo mais do que o mês anterior.
Se open source não matou o SaaS, a IA vai?
Esse é talvez o argumento mais poderoso contra a tese do "SaaS morreu". Software open source — código aberto, gratuito, que qualquer pessoa pode instalar — existe há décadas. E não matou o SaaS. Na verdade, gerou empresas bilionárias.
Se o medo é que "todo mundo vai conseguir criar um software com IA", precisamos lembrar que todo mundo já pode instalar software pronto e gratuito há anos. E mesmo assim, as pessoas preferem pagar por conveniência, suporte e confiabilidade.
WordPress: software gratuito, empresas bilionárias
O WordPress é provavelmente o software open source mais usado no mundo para web. É gratuito, feito em PHP, qualquer empresa de hospedagem tem um botão para instalá-lo com um clique. Tem milhares de plugins, layouts bonitos, se auto-atualiza facilmente.
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E mesmo assim:
- WordPress.com fatura milhões vendendo serviço de WordPress hospedado
- WP Engine fatura milhões como plataforma premium de WordPress
- Dezenas de outras empresas lucram com temas, plugins e serviços para WordPress
Software gratuito, open source, com código-fonte livre — e mesmo assim múltiplas empresas faturam mais do que a maioria dos SaaS proprietários. Como isso é possível?
Porque as pessoas pagam por conveniência. Elas não querem instalar, configurar, manter e atualizar. Elas querem que funcione.
Odoo: US$ 554 milhões com código aberto
Se o caso do WordPress não convenceu, o caso do Odoo deveria encerrar o debate.
O Odoo é um ERP open source completo — com CRM, controle financeiro, estoque, e muito mais. Ele concorre diretamente com softwares como o eGestor (e tem mais funcionalidades). O código é distribuído gratuitamente. Qualquer pessoa pode baixar, instalar num VPS de R$ 600/ano, e sair usando.
O resultado do Odoo em 2025
A empresa Odoo teve uma receita de US$ 554 milhões de dólares — vendendo suporte, hospedagem e serviços em torno de um software que é gratuito.
Por que os clientes pagam? Porque são pequenas empresas que não querem instalar servidor, não querem configurar banco de dados, não querem se preocupar com segurança. Eles contratam a empresa Odoo porque ninguém entende melhor o Odoo do que... a própria Odoo.
Isso é exatamente o que vai acontecer com o SaaS na era da IA: quem entender melhor seu próprio produto e seus clientes vai continuar prosperando.
Red Hat: US$ 5 bilhões vendendo o que é grátis
O Linux é gratuito. Qualquer pessoa pode baixar e usar. O código está aberto. E a Red Hat fatura US$ 5 bilhões por ano vendendo suporte empresarial para Linux.
Por quê? Porque empresas maiores não querem se preocupar com problemas. Se der algo errado, elas querem ter para quem ligar. É basicamente isso.
Nos anos 2000, várias empresas de Linux tentaram esse modelo. Nem todas sobreviveram (como a Conectiva, que depois virou Mandriva). Mas as que sobreviveram e se profissionalizaram estão ganhando muito dinheiro.
IA não substitui tudo — e as pessoas gostam de dashboards
Um argumento comum é: "a IA vai ser a interface de tudo. As pessoas vão perguntar ao ChatGPT ou ao Telegram e não precisarão mais do seu software."
Deivison Alves Elias testou exatamente isso. Ele criou uma integração com OpenAI para perguntar dados do seu site via Telegram. Funciona perfeitamente. E ele não usa.
"Tu acha que eu fico perguntando pro Telegram? Não. Eu entro no admin do meu site e olho o dashboard, porque eu gosto de dashboard. As pessoas gostam de dashboard."
Existe uma diferença entre poder fazer algo e querer fazer algo. Mesmo tendo a opção de conversar com uma IA, as pessoas preferem a experiência visual de um dashboard bem feito. E o seu SaaS já tem esse dashboard. E você também pode integrar IA nele.
Nem tudo precisa de IA
Deivison Alves Elias conta que estava caminhando pelo condomínio com as filhas e parou num mercadinho sem atendente — daqueles com maquininha de cartão. Será que uma IA vai substituir aquele terminalzinho?
Não. Porque não precisa. Já funciona. A empresa que fez aquela maquininha não precisa ser substituída por uma IA. Poderia melhorar algo aqui ou ali, mas no geral, já é bom o suficiente.
O SaaS não morreu. Ele vai se profissionalizar
A história da tecnologia mostra um padrão claro e consistente:
- Nova tecnologia surge e facilita o que antes era difícil
- Todos declaram que o modelo antigo "morreu"
- O mercado se canibaliza com novos entrantes
- Os amadores saem, os profissionais se fortalecem
- Empresas de verdade prosperam ainda mais do que antes
Foi assim com hospedagem de sites. Foi assim com open source. Foi assim com mobile ("os computadores vão deixar de existir"). Foi assim com a TV vs. rádio (o rádio ainda influencia a política nos EUA). E vai ser assim com a IA vs. SaaS.
Ferramentas de IA que provam que o SaaS está vivo: Lovable, Claude Code. E o IPO da Figma também confirma a tese.
Vai ter SaaS que vai morrer? Sim. Tem SaaS que a IA vai substituir totalmente. Mas não vai substituir absolutamente tudo. E as empresas que souberem se adaptar — que investirem em distribuição, em marca, em conhecimento profundo do seu cliente — vão sair mais fortes.
O que a história ensina para fundadores de SaaS
- Não entre em pânico. Tenha receio, não medo
- Estude IA ativamente — mesmo que seu trabalho principal seja gestão
- Lembre que a maioria das pessoas nem sabe o que é ChatGPT, e quem usa, usa para "fazer imagem bonitinha"
- Vivemos numa bolha: programadores profissionais ainda não estão usando IA no dia a dia de verdade
- Foque em distribuição e vendas — foi o que separou os sobreviventes dos mortos no mercado de hospedagem
- Crie um produto bom o suficiente. Nem tudo precisa de IA
"Eu tenho receio, não tenho medo. Eu não digo que as coisas não vão mudar, que eu não tenho que ficar de olho. Mas as coisas não mudam assim, da chave do 'agora é tudo uma coisa e tudo deixou de existir'."
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