O indie hacker Pieter Levels é um dos nomes mais respeitados no universo do software como serviço independente. No livro Make, ele reúne conselhos práticos sobre como construir, monetizar e até vender um SaaS. Deivison, fundador do eGestor e do LingHack, leu o livro e trouxe os principais pontos com sua perspectiva de quem está há anos no mercado de software como serviço.
1. Tenha uma ideia a partir de problemas em sua própria vida
O primeiro conselho de Pieter Levels é direto: tire suas ideias de problemas que você mesmo enfrenta. Quando você resolve algo que já viveu na pele, tem muito mais clareza sobre o que o produto precisa fazer. Você conhece a dor de perto e isso se traduz em software melhor, mais focado e mais capaz de resolver o problema de verdade.
Mas e quando você não tem problemas originais suficientes? A resposta de Pieter Levels é provocadora: torne-se uma pessoa mais original. Isso significa sair da frente do computador, viajar, ler livros fora da bolha tech, conhecer pessoas de contextos diferentes e entender como o mundo funciona além da tela.
Muita gente chega até Deivison dizendo que não tem uma ideia de software para desenvolver. E a análise é sempre a mesma: esse é exatamente o ponto. Pieter Levels é um nômade digital que já percorreu o mundo inteiro. Ao conviver com culturas e problemas diferentes, ele enxergou oportunidades que nunca apareceriam numa rotina fechada.
O próprio LingHack, software de ensino de idiomas criado por Deivison, nasceu de uma experiência pessoal. Em 2007, ao estudar inglês no Canadá, ele percebeu por intuição que a melhor forma de aprender um idioma era se expor intensamente a ele. Depois, ao seguir um poliglota canadense, descobriu que a ciência confirmava exatamente essa intuição. O LingHack é a materialização desse aprendizado, permitindo que pessoas aprendam inglês, alemão, coreano e outros idiomas por meio de conteúdo que realmente gostam.
2. Construa com as ferramentas que você já conhece
O segundo conselho trata de uma armadilha clássica: não passe um ano aprendendo uma linguagem nova antes de lançar seu produto. Use o que você já domina. Vai ser muito mais rápido, muito mais eficiente e você vai chegar ao mercado antes.
No mundo da programação, as brigas sobre qual tecnologia usar são quase religiosas. Cada um defende sua stack como se fosse um time de futebol. Mas Pieter Levels, e Deivison concorda, deixa claro que isso é uma distração. O LingHack foi desenvolvido em PHP, MySQL, HTML e JavaScript, tecnologias que já faziam parte do repertório de quem o criou. O SQLite entrou depois, para os dicionários, mas como uma adição pontual, não como uma fundação desconhecida.
Outro ponto relacionado a esse conselho é igualmente importante: não terceirize a construção para outras pessoas. Isso é uma desvantagem competitiva. Quando você depende de um programador externo, está colocando o destino do seu produto nas mãos de alguém que pode sair a qualquer momento.
Um exemplo real ilustra bem esse risco: um amigo de Deivison, não programador, estava desenvolvendo um aplicativo com um programador contratado. Quando esse programador conseguiu um emprego fixo e abandonou o projeto, o empreendedor ficou travado, sem saber o que fazer, buscando desesperadamente um substituto. Encontrar um bom programador parceiro, como observa Deivison, é algo tão difícil quanto encontrar uma boa sociedade de vida. Se possível, construa você mesmo.
3. Construa apenas a funcionalidade principal
Um dos erros mais comuns de quem está começando no SaaS é querer lançar um produto completo, cheio de funcionalidades, sem nenhuma imperfeição. O resultado quase sempre é o mesmo: o software nunca é lançado.
Pieter Levels é categórico nesse ponto: construa apenas o núcleo do produto. O resto vem depois, conforme o feedback real dos usuários. Um caso mencionado no canal ilustra bem isso: um desenvolvedor criou um software para dois irmãos que sempre queriam mais funcionalidades, nunca estavam satisfeitos, sempre pediam ajustes. O software nunca foi para o ar porque nunca estava perfeito de acordo com a visão deles.
Perfeição antes do lançamento é ilusão. O mercado vai te mostrar o que realmente importa, e você não tem como saber isso antes de colocar o produto nas mãos de usuários reais.
4. Lance o mais rápido possível
Diretamente conectado ao conselho anterior, Pieter Levels recomenda: lance o mais rápido possível. Quanto antes seu software estiver nas mãos de possíveis usuários, mais rápido você vai aprender.
Lançar cedo permite descobrir:
- Se as pessoas estão usando o produto e como estão usando
- Se não estão usando, por que não estão
- Se os argumentos de venda estão bem construídos
- Quais palavras os usuários usam para descrever o problema (e não as que você imagina)
- Se o botão está no lugar certo, se o fluxo faz sentido
- Se o produto resolve um problema real
- Se os clientes estão dispostos a pagar por ele
Bugs que você não encontrou sozinho aparecem. Feedbacks diretos chegam. E você melhora o produto com base em dados reais, não em suposições. Esse ciclo rápido de aprendizado é uma das maiores vantagens de um SaaS independente em relação a grandes corporações que demoram meses para ajustar qualquer coisa.
5. Monetize pedindo dinheiro diretamente aos usuários
Pieter Levels é direto sobre monetização: peça dinheiro aos usuários. Não venda os dados deles. Não encha o produto de anúncios. Não dilua a experiência. Seja honesto: diga que você precisa de receita para continuar construindo o produto que eles amam. E eles ficarão felizes em pagar.
Esse conselho faz todo sentido especialmente em nichos. Quando você resolve um problema específico, quando não há muitas alternativas no mercado ou quando as alternativas são muito mais caras, a honestidade cria uma conexão genuína com os potenciais clientes.
Um funcionário de Deivison viveu isso na prática. Com a ideia de desenvolver um software para óticas, ele foi pessoalmente a uma loja que nunca havia visitado antes e simplesmente explicou o que queria construir. Os donos abriram o sistema atual, mostraram o que gostavam, o que não gostavam, o que poderia ser melhor. Em poucos minutos, ele saiu com um mapa completo do mercado e das necessidades reais dos clientes.
Quer viver de SaaS? Aprenda a criar e escalar produtos SaaS com quem já viveu isso na prática.
Conheça o Vivendo de SaaS →Além disso, o feedback de quem paga é qualitativamente diferente do feedback de quem usa de graça. Quem paga tem skin in the game, tem interesse real em ver o produto funcionar bem. Esse tipo de retorno é ouro para o desenvolvimento do software.
6. Como vender sua empresa SaaS do jeito certo
Muitas pessoas sonham com o ciclo: lançar um SaaS, escalar rápido, vender por uma fortuna e ir para a praia. Pieter Levels não diz que isso é impossível, mas dá um conselho que muda a perspectiva sobre como chegar lá.
Segundo ele, não coloque sua empresa à venda publicamente. Deixe os compradores virem até você. O sucesso do produto fala por si mesmo. Deivison confirma isso com sua experiência no eGestor: nunca colocou a empresa à venda, mas constantemente recebe contatos de empresas interessadas em adquiri-la.
Outros conselhos de Pieter Levels sobre venda de empresa:
- Filtre os compradores não sérios e negocie apenas com quem demonstra interesse real
- Estabeleça um preço agressivamente alto para manter o poder de negociação do seu lado
- Receba em dinheiro, não em ações: receber participação acionária de outra empresa é arriscado e dilui seu controle sobre o resultado
- Não aceite earn out: esse modelo condiciona parte do pagamento ao desempenho futuro da empresa sob nova gestão, o que significa ficar anos trabalhando para outros sem garantia real de retorno
Deivison já recebeu propostas de compra com pagamento em ações de empresas de capital aberto e propostas com earn out de 3 a 4 anos. Antes mesmo de ler o livro de Pieter Levels, ele já rejeitava essas estruturas intuitivamente. Afinal, um dos principais motivos para abrir uma empresa é exatamente não trabalhar para os outros.
Por fim, Pieter Levels lembra de um aspecto que muitos ignoram: esteja preparado para o impacto emocional de vender. O criador do Minecraft vendeu o jogo por cerca de 1 bilhão de dólares e depois ficou sem saber o que fazer da vida. Uma empresa é anos de dedicação, são pessoas, são histórias. Vender por qualquer preço sem estar pronto para isso pode ser devastador.
7. Seja ético e não corte caminhos
O último conjunto de conselhos de Pieter Levels trata de algo simples, mas cada vez mais raro: ética. Ele é claro: não manipule usuários para fazer algo, não use truques de growth hacking para subir nos rankings de busca, não finja engajamento nas redes sociais, não abuse do seu poder para competir de forma desleal.
Se você construiu um bom produto, você não vai precisar de nada disso. E se cometer erros, assuma a responsabilidade e peça desculpas. Ser gentil com as pessoas já é uma vantagem competitiva hoje em dia, porque a maioria das empresas simplesmente não é.
Esse ponto se conecta diretamente ao modelo de bootstrapping, que Pieter Levels defende ao longo de todo o livro. Crescer com os próprios recursos cria uma pressão natural para ser mais criterioso: você não pode aceitar qualquer cliente só para bater meta, porque o custo de um churn depois é real. Você não pode jogar dinheiro em anúncios para resolver problemas de aquisição sem entender o que realmente funciona.
O bootstrapping força criatividade. E criatividade, combinada com ética, constrói marcas duradouras.
Bootstrapping versus capital de risco
Pieter Levels dedica um capítulo inteiro a esse tema e é enfático: o bootstrapping se tornou uma vantagem competitiva.
As vantagens de crescer com os próprios recursos incluem:
- Custos naturalmente baixos, sem pressão de investidores
- Zero burocracia interna para tomar decisões
- Controle total sobre o produto e o roadmap
- Posse integral do patrimônio, o que maximiza o retorno numa eventual venda
- Liberdade para dizer não a clientes que não se encaixam no perfil ideal
Um amigo de Deivison trabalhou numa empresa de SaaS que recebeu aporte. O resultado foi burocracia em tudo: cada mudança exigia relatórios para investidores, cada decisão precisava de justificativa formal. Coisas que no eGestor são resolvidas num debate rápido de alguns minutos levavam semanas nessa empresa.
Já o capital de risco, como observa Pieter Levels, se tornou cansativo de conseguir: às vezes são seis meses de reuniões para uma resposta. E quando o dinheiro entra, a lógica muda: cresça de forma absurda ou morra. Muitos empreendedores se arrependem de ter diluído a empresa cedo demais, perdendo controle e retorno financeiro.
Nos tempos atuais, os custos para lançar um SaaS são baixíssimos: um servidor web custa pouco por mês, o VS Code é gratuito, o Xcode para iOS é grátis, uma licença de desenvolvedor da Apple custa 100 dólares por ano. O bootstrap nunca foi tão viável quanto agora.
Um exemplo marcante é o da chess.com: lançada em 2006, não conseguia investidores porque ninguém acreditava que xadrez era um mercado grande o suficiente. Foram obrigados a crescer com os próprios recursos e chegaram a 100 milhões de dólares de faturamento sem um centavo de capital externo. A limitação virou combustível.
O que esses conselhos têm em comum
Os sete conselhos de Pieter Levels reunidos por Deivison formam uma filosofia coerente para quem quer construir um SaaS sustentável e independente. A ideia central é simples: resolva problemas reais, construa rápido com o que você já sabe, lance logo, cobre pelo valor que entrega, cresça com seus próprios recursos e seja honesto em cada etapa.
Não há atalho mágico, não há tecnologia que resolva tudo, não há investimento que substitua entendimento profundo do problema. O que existe é trabalho consistente, aprendizado contínuo e disposição para colocar o produto no mundo antes que ele esteja perfeito.
Se você está começando ou já tem um SaaS em andamento, o livro Make, de Pieter Levels, é uma leitura obrigatória.
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