Aos 19 anos, estagiando em uma empresa de telefonia, era comum cruzar com um colega de trabalho contratado, de uns 40 anos, que fazia basicamente o mesmo tipo de tarefa que um estagiário de 19. Ele tinha um pouco mais de responsabilidade, mas o serviço era quase idêntico. Um dia ele viu as ferramentas internas desenvolvidas por aquele estagiário e disse algo como: eu era que nem tu na tua idade, também gostava muito de tecnologia. A frase decepcionou, e a situação daquele colega era ainda mais dura do que parecia à primeira vista: a estatal onde trabalhavam estava virando empresa privada, e ele tinha se mudado sozinho para outra cidade só para não perder o emprego, morando em um hotel, longe da família, voltando para casa apenas nos fins de semana. Foi ali que nasceu a decisão de não querer aquela vida: empreender, de algum jeito, mesmo sem saber exatamente como.
Ninguém para copiar
Não havia nenhum empreendedor na família ou no círculo de conhecidos para servir de referência. Tios trabalhavam em bancos como caixas, o pai também trabalhava em banco no Rio Grande do Sul, e o grande sonho dele era ver o filho passar em um concurso público. A família era de classe média baixa para os padrões da região, sem faltar comida, mas também sem luxo. Mesmo assim, a ideia de fazer concurso nunca fez sentido de verdade. O que sempre chamou atenção, desde pequeno, foi a ideia de construir algo e ver pessoas usando aquilo, um produto, um serviço, alguma coisa criada do zero.
Não existe fórmula mágica
Em conversas e mentorias com quem quer largar o emprego para empreender, a pergunta mais comum costuma ser: existe alguma tática infalível, um pulo do gato que garanta que vai dar certo? A resposta sincera é que não existe. Ninguém tem essa fórmula mágica, e quem estiver vendendo uma promessa de riqueza garantida provavelmente está enganando alguém. O que existe é trabalho, risco, e a decisão real de fazer acontecer. Existe uma diferença entre pensar em empreender e virar a chave de verdade, decidir usar todos os recursos e conhecimentos disponíveis para perseguir aquilo.
Vale lembrar que a paixão pelo projeto nem sempre vem antes de começar. O eGestor não nasceu de uma paixão profunda por gestão de empresas: no início, nem os próprios sócios sabiam exatamente o que estavam construindo. A paixão pela ideia de ajudar empresas a se organizar melhor veio depois, com o tempo, junto com os resultados. Antes de chegar a esse produto, várias outras ideias de software passaram pela cabeça, sem nenhuma delas ter vingado. O que importou, no fim, não foi acertar de primeira, foi continuar tentando até uma delas dar certo, e então investir energia de verdade naquela que mostrou sinal de funcionar.
Empreender é uma habilidade que se treina
Empreendedorismo tem mais a ver com uma habilidade treinável do que com um dom natural, parecido com aprender uma arte marcial. Quem pratica jiu-jitsu sabe que, nos dois primeiros anos, o praticante ainda nem tem um nome específico para o próprio nível, e passa muito tempo apanhando antes de conseguir vencer alguém. Ninguém entra em uma academia e sai de lá com faixa preta no mesmo dia, e mesmo que alguém recebesse uma faixa preta sem nunca ter treinado, não teria como sustentar aquele nível.
O mesmo vale para uma empresa. Dar de presente uma empresa já estabelecida, com R$ 300 mil de receita recorrente mensal, para alguém sem nenhum preparo anterior, provavelmente terminaria em quebra, porque faltaria a bagagem necessária para lidar com a complexidade que vem junto com esse tamanho de operação. Começar cedo e com pouco dinheiro cria justamente essa bagagem: quando há pouco dinheiro disponível, a saída é usar criatividade para resolver problemas, em vez de simplesmente jogar dinheiro neles. Essa criatividade forçada pelo orçamento apertado vira uma casca protetora que ajuda muito no médio e longo prazo, porque, quanto maior a empresa, mais complexos ficam os problemas. Problemas vão sempre existir, a única escolha real é decidir qual tipo de problema vale a pena enfrentar.
Não é uma questão de assustar quem está pensando em empreender agora, e sim de deixar claro que problema vai continuar existindo, só muda o tipo e o tamanho dele. Enquanto se está vivo, há problema. A diferença entre quem trava nessa constatação e quem segue em frente costuma estar em aceitar essa realidade cedo, sem esperar um momento hipotético em que tudo estará resolvido para só então dar o primeiro passo.
O verdadeiro risco está no emprego
A grande dúvida de quem pensa em largar o emprego geralmente vem cercada de medo do risco. Só que ficar na CLT também é arriscado, só que de um jeito diferente: nesse modelo, toda a renda depende de um único cliente, o empregador. Se ele demite, acaba a renda inteira de uma vez. Em um software como serviço com, digamos, mil clientes pagantes, essa mesma renda está pulverizada entre mil fontes diferentes. Perder um cliente nesse cenário é um arranhão. Perder o emprego, no modelo CLT, é um abismo.
Essa é justamente a situação do colega do hotel: ele não estava morando longe da família por escolha própria, mas porque precisava sustentar essa mesma família, e aquele emprego específico era o que ele tinha. Ele teve que se submeter a viver assim, viajando toda sexta e voltando todo domingo, durante anos, porque toda a renda dele dependia daquele único empregador.
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Naval Ravikant tem uma ideia que resume bem esse ponto: ninguém fica rico alugando o próprio tempo. Um emprego é, na prática, alugar o seu tempo para outra pessoa. Liberdade financeira vem de ter uma fatia de um negócio, o chamado equity, seja sendo dono de parte de uma empresa ou dela inteira. No modelo CLT não existe equity: existe apenas a venda do próprio tempo, hora após hora, mês após mês.
Medo de roubarem a ideia não deveria travar ninguém
Outro medo recorrente é o de que alguém copie a ideia do software antes ou depois de lançá-lo. Isso não costuma ser um problema real, porque o grande diferencial de um SaaS não está na ideia em si, nem só nas funcionalidades ou no desenvolvimento: está na distribuição. Um software bom o suficiente, que resolve de verdade o problema do cliente e consegue captar esses clientes de forma consistente, está protegido, independentemente de outras pessoas conhecerem a mesma ideia. Mais cedo ou mais tarde, o software vai precisar ser lançado, e é bem provável que a ideia já exista em algum lugar. Se não existir nenhum concorrente parecido, vale desconfiar se realmente existe demanda para aquilo. Se existir mercado, é sinal de que outras pessoas já tiveram a mesma ideia antes, e isso não é motivo para travar o lançamento.
O conceito de dívida boa
Outro medo comum é o de se endividar para fazer as coisas acontecerem. Uma experiência pessoal ajuda a ilustrar esse ponto: por volta dos 21, 22 anos, depois de se decepcionar com projetos de desenvolvimento de software mal orçados e mal cobrados, veio a decisão de cursar administração, não tecnologia, para aprender mais sobre dinheiro e gestão. Sem dinheiro suficiente para pagar a faculdade inteira, mas com dinheiro para o primeiro semestre, a estratégia foi se matricular mesmo assim: pagar aquele semestre e usar os seis meses seguintes para conseguir juntar o valor do próximo, trancando o curso se não desse certo. Deu certo, e o valor real dessa experiência não foi tanto o conteúdo da faculdade em si, mas a confirmação de que era possível se organizar financeiramente sob pressão, assumindo uma dívida pequena e cumprindo com ela.
Existe uma frase do padre José Kentenich, sacerdote católico atualmente em processo de beatificação, que diz que um homem precisa ter mais dívida do que dinheiro e mais trabalho do que tempo. Uma dívida pequena e bem calculada, dessas que apertam mas que dá para pagar, tem esse efeito de fazer a pessoa se mexer. É até uma brincadeira recorrente com a equipe de vendas: vendedor endividado costuma vender mais, porque precisa. O ponto central não é recomendar dívida por dívida, é reconhecer que uma dívida pequena, dimensionada para caber no orçamento mesmo em um cenário apertado, e usada para viabilizar algo que realmente vale a pena, é diferente de um empréstimo alto para bancar um projeto sem estrutura para sustentar aquele valor depois. A primeira move a pessoa para frente. A segunda quebra qualquer negócio antes mesmo de ele decolar.
O superpoder da recorrência
Antes do eGestor, vieram bicos e projetos avulsos de desenvolvimento de software para terceiros, sem previsibilidade nenhuma de receita. O que muda tudo em um SaaS é a recorrência: o cliente pagando todo mês, mesmo que o valor de cada mensalidade pareça pequeno isoladamente. Aos poucos, cliente após cliente, essa receita recorrente mensal cresce, criando um nível de previsibilidade e estabilidade dificilmente encontrado em outros tipos de negócio, desde que o churn não seja catastrófico.
Alguns marcos concretos ajudam a mostrar como essa trajetória se desenrolou. Em janeiro de 2010, com o eGestor já completando um ano, ainda sem sobrar dinheiro de verdade no bolso, veio uma viagem de férias que, por dentro, foi de preocupação: no ritmo em que as coisas estavam indo, faltariam poucos meses até o dinheiro acabar. Foi a última vez que esse tipo de aperto financeiro voltou a incomodar de verdade. Pouco depois, a receita recorrente mensal chegou a R$ 20 mil, valor considerável para 2010, e vieram duas decisões: mudar a sede da empresa para um espaço maior, com estrutura para contratar mais gente no futuro, e pedir a namorada em casamento, hoje esposa e mãe das duas filhas do casal.
Quando a receita recorrente mensal chegou a R$ 40 mil, veio a contratação de um programador que hoje é sócio da empresa. Ele trabalhava em uma empresa maior na região e estava desconfiado da proposta, mesmo depois de ver o DRE e as notas fiscais que comprovavam que havia dinheiro para pagar o salário dele. O que realmente fechou negócio não foi a planilha financeira, foi a resposta a uma pergunta simples: dava para trabalhar de bermuda em vez de uniforme? A resposta foi sim, e ele está na empresa até hoje.
A diferença nunca foi talento
Voltando ao colega do hotel: ele tinha talento e capacidade de sobra. O que faltou não foi inteligência, foi a decisão de mudar de vida em algum momento antes. Ele conseguiu um emprego e seguiu fazendo o que aquele emprego permitia, sem nunca dar o passo de tentar outra coisa. Existe muita gente inteligente que nunca chega a tomar essa decisão. O que muda o jogo não é uma tática secreta de vendas nem um segredo escondido, é a decisão em si, seguida de execução responsável, sem afobação. É isso que separa quem continua alugando o próprio tempo indefinidamente de quem, cedo ou tarde, decide construir algo próprio.
Quem tem conhecimento técnico e ainda está na dúvida sobre largar o emprego carrega, nesse sentido, uma vantagem que muita gente fora da área de tecnologia não tem: a capacidade de construir o próprio produto sem depender de um sócio técnico, de um investidor ou de uma equipe cara para validar a primeira versão de uma ideia. É uma vantagem quase injusta em relação a quem precisa contratar ou terceirizar cada etapa do desenvolvimento antes mesmo de saber se aquilo vai dar certo. Desperdiçar essa vantagem continuando indefinidamente em um emprego que aluga o próprio tempo por um salário fixo, com toda a renda concentrada em um único empregador, é uma escolha, mesmo quando parece só uma acomodação natural. E como qualquer escolha, ela pode ser revista a qualquer momento, começando pequeno, com pouco dinheiro, aceitando que vai apanhar no início, exatamente como em qualquer outra habilidade que exige prática antes de gerar resultado.
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