Muito provavelmente o SaaS que você já tem hoje seria capaz de alcançar R$ 100 mil de receita recorrente mensal, e talvez até bem mais do que isso. O problema não costuma ser o produto: é a falta de acreditar que esse número é possível e de enxergar os ajustes simples que levam até ele. É comum um SaaS decolar vendendo para a carteira de contatos do fundador, para amigos, conhecidos, gente da própria cidade, e então empacar assim que essa audiência inicial se esgota. Muita gente trava nos R$ 20 mil de receita recorrente mensal, passa anos ali, cresce um pouquinho de vez em quando, mas nunca ultrapassa aquele patamar. Quem administra o eGestor, ERP para micro e pequena empresa no mercado desde 2009, com mais de 30 mil clientes ativos e faturamento na casa dos oito dígitos, já viu esse padrão se repetir em várias mentorias com outros donos de SaaS.
E o efeito colateral desse platô não é só financeiro. É comum ver empresário de SaaS cansado, trabalhando demais, com a empresa inteira dependente dele, cabelo grisalho, olheiras, vivendo uma rotina sofrida porque o negócio nunca decolou de verdade. Uma empresa não pode se dar o luxo de ficar parada. Se não está crescendo, está murchando, e isso acaba atrapalhando a vida pessoal de quem toca o negócio. Então vale a pena estudar, de forma bem prática, o que fazer para sair do platô e mirar nos R$ 100 mil de faturamento recorrente, ou em algo bem maior do que isso.
O primeiro erro é cobrar barato demais
A maioria dos SaaS cobra muito menos do que poderia. Pense em um exemplo simples: se você já tem mil clientes e sobe R$ 20 por mês na mensalidade de todos, isso significa R$ 20 mil a mais por mês, ou R$ 240 mil a mais por ano. Quando foi a última vez que você revisou o preço do seu software? Subir preço, mesmo para cliente antigo, raramente traz o estrago que a gente imagina. Se o software realmente resolve o problema do cliente, a diferença entre cobrar R$ 69,90 e R$ 99,90 não costuma ser motivo suficiente para cancelamento. As pessoas não abandonam um software que funciona por causa de um reajuste desse tamanho.
Um jeito de tornar esse reajuste natural, e de parar de depender de coragem para reajustar de vez em quando, é colocar no contrato, desde o início, que o preço será corrigido uma vez por ano por um índice como o IGPM. Assim, todo cliente que fecha em determinado mês já sabe que, no mesmo mês do ano seguinte, o valor sobe. Como as vendas acontecem o ano inteiro, o reajuste também vira uma rotina mensal, aplicado de forma automática a quem está completando um ano de contrato naquele momento, em vez de um evento único e desconfortável.
Outro ponto sensível são os planos antigos e baratos demais, geralmente vendidos lá no início da empresa, quando ainda não havia confiança para cobrar o valor justo. É possível, e recomendável, entrar em contato com esses clientes legados e negociar: explicar que aquele plano específico, de valor muito abaixo do praticado hoje, vai deixar de existir. A alternativa dada ao cliente é simples e direta: ou ele busca outra solução no mercado pelo mesmo preço que pagava, ou continua com o fornecedor atual pagando o valor atualizado, alinhado ao que os outros clientes já pagam. Na prática, ao aplicar essa conversa, a taxa de cancelamento tende a ser baixa. Quem está satisfeito com o software raramente troca de fornecedor só por causa de um reajuste, mesmo que ele pareça grande em termos percentuais.
Medo de cobrar caro é sintoma de falta de ritmo
Quando bate o medo de cobrar um preço mais alto na hora da venda, o problema geralmente não é o preço em si: é a falta de leads e de ritmo comercial. Ritmo aqui significa estar em contato com clientes o tempo todo, conversando com um volume razoável de leads toda semana, e não depender de cada conversa isolada para fechar o mês. Quanto mais conversas acontecem, menos peso cada recusa individual carrega, porque sempre existe o lead de amanhã ou de depois de amanhã disposto a pagar o valor pedido.
Esse ritmo constante de conversas é o que dá segurança para cobrar o preço que o produto realmente vale, sem recorrer a descontos por insegurança. Preço baixo não é humildade, é receita recorrente ficando na mesa, sem necessidade. Cada real deixado de lado na precificação é dinheiro que poderia estar entrando todo mês, de forma recorrente, sem exigir um cliente novo.
Vale reforçar: essa dinâmica não depende de sorte nem de um golpe de talento em vendas. É volume de conversa. Quem fala com dez clientes por semana consegue calibrar melhor o próprio discurso de preço do que quem fala com dois. A cada objeção repetida, fica mais fácil responder com segurança, e a cada venda fechada no valor cheio, fica mais claro que o mercado aceita pagar aquilo. O medo de cobrar caro tende a diminuir na mesma proporção em que o ritmo comercial aumenta.
Inadimplência alta é churn escondido
Outra alavanca pouco explorada é reduzir a inadimplência. É tentador deixar o cliente inadimplente continuar usando o software, na esperança de que ele regularize sozinho mais adiante, mas isso cria um problema maior lá na frente: existe uma relação direta entre inadimplência e churn. Quanto mais tempo um cliente fica devendo, maior a chance de cancelamento, porque a dívida acumulada vira justificativa para desistir de vez, em vez de acertar as contas.
O raciocínio é simples: se o cliente deve R$ 100 de um único mês, o caminho mais fácil na cabeça dele é regularizar e seguir usando o serviço. Se já deve R$ 200 de dois meses acumulados, a conta psicológica muda: cancelar de vez parece mais simples do que juntar dinheiro para pagar tudo o que ficou para trás. Cobrar cedo, logo que o atraso começa, evita que essa bola de neve cresça.
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Conheça o Vivendo de SaaS →Por isso vale montar uma régua de cobrança bem definida, com contatos em datas específicas por SMS, WhatsApp, e-mail ou ligação, cobrando o cliente assim que o atraso começa, em vez de deixar a dívida se acumular por meses. Bloquear o acesso de quem está inadimplente também faz parte do processo, por mais desconfortável que pareça no início. Na prática, é comum que o próprio bloqueio seja o gatilho que faz o cliente resolver a pendência mais rápido do que qualquer cobrança amigável, porque de repente aparece dinheiro que, até então, não parecia estar disponível. Trabalhar essa régua de cobrança com disciplina reduz a inadimplência e, como consequência direta, reduz também o churn do software.
Isolar uma funcionalidade pode virar um novo gerador de leads
Se o seu software é robusto, com várias funcionalidades dentro de um único produto, e você precisa de mais leads para crescer, vale considerar isolar uma dessas funcionalidades em um produto à parte, mais simples e mais barato de construir do que parece. Um exemplo prático: o eGestor (egestor.com.br) é um ERP completo, com controle de estoque, controle financeiro e emissão de nota fiscal eletrônica, tudo em uma única ferramenta. A partir dele nasceu o NFe+ (nfemais.com.br), um software separado, com site e descrição próprios, focado exclusivamente em emissão de nota fiscal eletrônica, sem controle de estoque nem controle financeiro.
Esse produto menor e mais específico tem uma vantagem grande: como resolve um problema só, é mais fácil de posicionar, de descrever e de ranquear no Google para esse nicho específico, virando um gerador de leads por conta própria. Quando um vendedor está conversando com um lead que chegou pelo NFe+, é natural puxar o assunto para controle de estoque e financeiro, entender como esse potencial cliente resolve esses dois pontos hoje, e boa parte desses leads acaba fechando negócio com o eGestor, o produto mais completo.
Isso funciona porque, em marketing, a cabeça das pessoas trabalha como um conjunto de gavetas: não cabem várias categorias de pensamento associadas à mesma marca, ou à mesma pessoa, ao mesmo tempo. Quando alguém constrói uma reputação em uma categoria específica, como programador ou como especialista em SaaS, é difícil para o público enxergar essa mesma pessoa em outra categoria simultaneamente. Um produto novo, mais específico, ocupa uma gaveta própria na cabeça de quem procura e abre uma porta de entrada diferente para quem, no fundo, já vende um software mais completo. E não é necessário construir algo do zero e gigantesco para isso: o ideal é pegar uma funcionalidade que já existe dentro do produto principal e transformar em um produto simples, enxuto e fácil de explicar em uma única frase.
Upsell e cross-sell: vender mais para quem já é cliente
Outra frente óbvia, mas pouco trabalhada na prática, é vender mais para a base de clientes que já está ativa. Upsell é migrar clientes para planos maiores, seja oferecendo mais recursos, mais usuários ou funcionalidades adicionais que já existem no software. Cross-sell é oferecer outro produto complementar, que resolva uma dor específica diferente da dor principal, sem precisar ser um sistema gigantesco nem levar meses para ficar pronto.
Para descobrir o que vale a pena oferecer, vale olhar para as próprias conversas com clientes, que já contêm essas respostas. Uma prática interessante é gravar todas as ligações comerciais e de suporte, transcrever esse material e depois usar inteligência artificial para analisar o conteúdo dessas transcrições, perguntando diretamente quais funcionalidades os clientes mais pedem, ordenadas por frequência. O mesmo processo pode responder que produtos novos fariam sentido para essa base específica, a partir do que as próprias conversas revelam sobre as dores e os pedidos recorrentes.
Antes, esse tipo de análise exigiria uma pesquisa de mercado cara, contratar uma empresa externa especializada, ou meses de trabalho manual revisando anotações de atendimento. Hoje, os dados já existem dentro da própria operação, guardados em ligações e conversas, e a inteligência artificial consegue organizar e priorizar esse material de forma rápida, sem custo adicional relevante.
Sempre existe algo para ajustar
Nenhuma dessas alavancas depende de reinventar o produto do zero: é preço, é política de cobrança, é isolar funcionalidades já existentes e é aproveitar melhor a base de clientes que já paga pelo software hoje. O que não pode acontecer é estagnação, esperar que o crescimento aconteça sozinho enquanto o negócio segue exatamente igual ano após ano.
Vale olhar para o negócio de ângulos diferentes com frequência: reduzir churn, reduzir inadimplência, atender melhor, cobrar de forma mais justa e alinhada ao valor entregue, entender de verdade como o cliente usa a ferramenta no dia a dia e onde ela ainda deixa a desejar. Hoje, com inteligência artificial disponível para analisar dados que antes ficavam perdidos em ligações e planilhas, essa análise ficou mais acessível do que nunca. Existe bastante oportunidade para ganhar mais dinheiro com o mesmo software como serviço que já está no ar, sem precisar de um produto novo do zero nem de uma reviravolta completa na estratégia. Muitas vezes falta apenas colocar a cabeça para trabalhar nesses pontos específicos, um de cada vez.
Vale ainda uma última observação prática: nenhuma dessas frentes exige escolher só uma. Reajustar preço, montar uma régua de cobrança, isolar uma funcionalidade em um produto novo e revisar upsell e cross-sell podem, e devem, andar em paralelo, cada uma em um ritmo próprio. O importante é sair do modo de operação parado, em que o software segue exatamente igual mês após mês, e passar a tratar o próprio negócio como algo que também precisa ser continuamente ajustado, do mesmo jeito que o produto é ajustado para o cliente final. R$ 100 mil de receita recorrente mensal não é um teto distante para quem já tem uma base de clientes pagando hoje: é, na maioria dos casos, o resultado esperado de aplicar esse conjunto de ajustes com constância ao longo de alguns meses.
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