Um tweet do empreendedor Marc Lou viralizou na comunidade de indie hackers ao afirmar que o SaaS (Software como Serviço) é o pior negócio para começar. A afirmação provocou debate intenso, e no canal Vivendo de SaaS, Deivison Alves Elias trouxe sua análise detalhada: concorda com alguns pontos, discorda de outros, e apresenta caminhos alternativos para quem quer empreender em tecnologia sem cometer os erros mais comuns.
O Tweet que Provocou o Debate
Marc Lou, um conhecido indie hacker com forte presença no mundo do MicroSaaS, publicou o seguinte texto em inglês, traduzido por Deivison no vídeo:
"SaaS é o pior negócio para começar no empreendedorismo. Você precisa entregar muito valor, construir uma confiança incrível, resolver um problema doloroso e jogar um jogo no modo Hardcore. Em vez disso, comece com um blog, um livro, uma agência, uma ferramenta gratuita, um diretório, uma newsletter, uma comunidade, um Marketplace, um produto de pagamento único. Você descobrirá problemas reais enquanto constrói confiança com seu mercado."
Deivison, que acompanha Marc Lou há anos e recomenda seu conteúdo para quem entende inglês, não concorda integralmente com a afirmação. Para ele, o SaaS não é um mau negócio por natureza, mas sim quando iniciado sem audiência, sem validação e sem conversa prévia com clientes.
O Erro Mais Comum de Quem Começa um SaaS
O principal problema que Deivison identifica não é o SaaS em si, mas a maneira como a maioria das pessoas inicia: desenvolvem o software inteiro antes de falar com qualquer cliente, imaginam um problema e vão atrás de uma solução imaginária, lançam sem ter com quem mostrar o produto e se frustram rapidamente quando não conseguem clientes.
Deivison foi transparente sobre sua própria experiência: em outubro do ano anterior ao vídeo, ele passou um mês desenvolvendo o LingHaack, um SaaS próprio, motivado principalmente pelo desejo de programar após um período como gestor. O produto foi lançado sem audiência prévia construída especificamente para ele, e o desafio de conquistar clientes ficou evidente logo no primeiro dia após o lançamento.
O ponto que Marc Lou levanta, e com o qual Deivison concorda, é que construir audiência antes de lançar um produto faz diferença real nos resultados. Quem tem seguidores, tem com quem mostrar o software no lançamento.
Análise de Cada Alternativa Sugerida por Marc Lou
Blog: Uma Ideia com Ressalvas
Marc Lou sugere começar com um blog. Deivison não recomenda essa abordagem atualmente por um motivo objetivo: o tráfego orgânico via Google caiu de forma generalizada em praticamente todos os segmentos. A própria HubSpot, empresa que popularizou o conceito de Inbound Marketing, enfrentou quedas expressivas de visitação orgânica.
A mudança no algoritmo do Google e o comportamento crescente de buscar respostas diretamente em ferramentas de inteligência artificial reduziram o alcance dos blogs de forma significativa. Para quem quer construir audiência hoje, a alternativa que Deivison recomenda é o Substack, uma plataforma de criação de conteúdo e newsletters. O modelo funciona assim: você publica, divulga, as pessoas se cadastram com o e-mail e você mantém a conversa com esse público ao longo do tempo.
Agência de Marketing: Bom Começo, Mas com Armadilhas
A sugestão de começar com uma agência de marketing tem mérito, especialmente porque gera receita no curto prazo. Deivison, porém, alerta para o problema clássico de escalabilidade das agências: para crescer, é preciso contratar mais pessoas. E quando um cliente cancela, pode ser necessário demitir. O resultado é um negócio com faturamento crescente, mas lucro volátil e estrutura operacional instável.
Um caso interessante mencionado é o de Leandro Ladeira, que teve exatamente esse problema com sua agência antes de migrar para outros modelos de negócio.
Apesar das limitações, Deivison vê a agência como uma porta de entrada válida para o SaaS: ao atender clientes de um nicho específico, o empreendedor entende os problemas reais desse mercado e pode desenvolver um software que resolva exatamente o que esses clientes precisam. Um amigo de Deivison passou por esse caminho exato, de agência para SaaS voltado a revendas de automóveis, com sucesso.
Ferramenta Gratuita: Estratégia de Geração de Leads com Cuidado
Oferecer uma ferramenta gratuita como isca para atrair leads é uma estratégia que Deivison usa e recomenda, com uma ressalva importante: o custo precisa ser controlado. Uma ferramenta gratuita sem modelo de monetização pode se tornar um peso financeiro.
No caso do eGestor, a equipe lançou o NFe Mais (nfemais.com.br), um software para emissão de nota fiscal eletrônica com plano gratuito de até 15 notas por mês. Lançado em 2010, o produto já se sustenta e gera leads qualificados, pois quem emite mais de 15 notas precisa contratar. Outra iniciativa similar foi o site certificadopj.com.br, que vende certificados digitais a preços muito abaixo do mercado como forma de atrair leads para os outros produtos do portfólio.
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Conheça o Vivendo de SaaS →Comunidade: Uma das Melhores Estratégias de Longo Prazo
Para Deivison, construir uma comunidade é uma das estratégias mais valiosas para quem quer empreender em SaaS. Ele compartilhou sua experiência com a comunidade do Vivendo de SaaS no Facebook, um grupo gratuito com mais de 6.000 profissionais de software como serviço.
Os benefícios que ele identificou ao longo dos anos:
- Geração de leads: novos membros entram e se tornam leads qualificados para os produtos do portfólio.
- Aprendizado sobre o mercado: conversas na comunidade revelaram comportamentos e necessidades que Deivison não havia previsto ao criar o canal.
- Validação de ideias: antes de lançar qualquer produto, a comunidade funciona como termômetro real de interesse.
Um exemplo concreto: ao começar a falar sobre MicroSaaS no Brasil (sendo um dos pioneiros no tema em português), Deivison percebeu o interesse crescente do público e isso orientou a criação de novos conteúdos e produtos para esse nicho específico.
Marketplace: O Ponto de Discordância Total
Aqui Deivison discorda completamente de Marc Lou. Para ele, começar com um Marketplace é mais difícil do que começar com um SaaS, não o contrário.
Os motivos são claros:
- Dois públicos para conquistar: um marketplace precisa atrair vendedores e compradores simultaneamente, o que dobra o esforço de marketing e vendas.
- Margens baixas: o modelo de negócio de marketplace cobra comissão sobre transações, o que limita a margem disponível.
- Necessidade de ser o número um: em um mercado de marketplace, quem não lidera tende a ser ignorado. Em SaaS, o quinto ou o décimo do mercado ainda pode ter um negócio sustentável e lucrativo.
- Maioria não é lucrativa: plataformas como o Uber operam no vermelho por anos antes de atingir lucratividade, o que é inviável para um empreendedor individual.
Produto de Pagamento Único: Uma Ideia Interessante com Ressalvas
Marc Lou é um defensor do modelo de produto com pagamento único em vez de assinatura recorrente. A lógica é baseada no LTV (Lifetime Value): se o cliente médio de um SaaS gasta 5.000 reais ao longo de toda a sua vida na plataforma, por que não cobrar esse valor de uma vez, eliminando o risco de churn e recebendo antecipado?
Deivison entende o raciocínio, mas tem reservas práticas: o cliente fica usando o produto eternamente, o que significa custo contínuo de servidor e manutenção sem receita correspondente. Por isso, não descarta a possibilidade de experimentar esse modelo em algum produto futuro, mas ainda não se sente seguro para adotar a abordagem.
Alternativas que Deivison Recomenda
Além de comentar as sugestões de Marc Lou, Deivison trouxe suas próprias ideias para quem quer construir audiência antes de lançar um SaaS:
Grupos no WhatsApp, Telegram e Discord
Criar um grupo em torno de um tema específico é uma forma eficiente de reunir um público interessado. Um caso real mencionado: um seguidor do canal criou um grupo no Telegram voltado a médicos, publicava conteúdo útil regularmente e, quando lançou seu software de gestão para consultórios, conseguiu 30 vendas no primeiro dia, exatamente para as pessoas que já acompanhavam o grupo.
Canal no YouTube
Fazer o que Deivison faz com o Vivendo de SaaS. Gravar vídeos com frequência, sem edição elaborada, focando no conteúdo e na consistência. Com o tempo, o canal cresce, gera audiência qualificada e serve de plataforma para lançar produtos.
Posts no LinkedIn
Quem escreve no Substack pode aproveitar o mesmo conteúdo no LinkedIn, ampliando o alcance sem esforço adicional. O LinkedIn ainda tem alcance orgânico relevante para conteúdo B2B, diferente de outras redes.
A Conclusão: SaaS é Difícil, Mas Não é o Pior
A posição de Deivison Alves Elias ao final do vídeo é equilibrada: Marc Lou tem razão quando aponta que começar um SaaS sem audiência é um caminho difícil. Mas dizer que é o pior negócio para começar vai longe demais, especialmente quando a alternativa sugerida (Marketplace) é, na prática, ainda mais complexa.
A recomendação central é clara: antes de escrever uma linha de código, construa audiência. Seja por newsletter, por comunidade, por canal no YouTube ou por grupos de WhatsApp. Converse com clientes reais, entenda problemas reais e só então construa um software para resolver esses problemas para as pessoas que já te conhecem e confiam em você.
Esse é o caminho que torna o SaaS viável para um empreendedor solo ou uma pequena equipe, não a stack tecnológica utilizada, nem o tamanho do mercado, mas sim a audiência que você constrói antes de lançar.
Para quem quer aprofundar no tema, o canal Vivendo de SaaS, conduzido por Deivison Alves Elias, traz episódios regulares em português sobre gestão, vendas e crescimento de empresas de software como serviço.
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