Deivison assistia a um vídeo de Alex Hormozi, guru de marketing americano, quando parou numa frase simples: "just start", apenas comece. E, diferente do que costuma acontecer quando ouve esse tipo de conselho de guru de palco, dessa vez concordou de verdade. Porque foi exatamente isso que fez no fim de 2008, quando começou a desenvolver o eGestor sem saber, ainda, que um dia dariam um nome bonito para aquela ideia.
Comecei o eGestor sem saber o que era um ERP
Deivison programa desde 1994, mas isso não significa que sabia o que estava fazendo quando começou o eGestor. Ele conta que, na época, nem sabia direito o que significava a sigla ERP. O que existia era um problema prático: ele e os sócios vinham de dificuldades financeiras e precisavam ganhar dinheiro. Então construíram um software para empresa, com controle financeiro, controle de estoque e processo de venda, do jeito que sabiam.
A primeira versão nem gerava um DRE, porque ele ainda não sabia o que era um DRE. Não existia nota fiscal eletrônica na época, e os relatórios eram, nas próprias palavras dele, muito ruins. Mesmo assim, venderam para as primeiras empresas. Foi vendendo, atendendo e apanhando que o time foi entendendo o que um ERP de verdade precisava ter, e as versões seguintes foram ficando melhores.
Hoje o eGestor tem mais de 30 mil clientes e fatura oito dígitos por ano. Mas a primeira versão era, nas palavras do próprio Deivison, bem básica e bem mal feita.
As desculpas que todo fundador de SaaS já usou
Deivison reconhece o padrão porque passou por ele: a ideia de que falta alguma funcionalidade para o produto decolar, que é preciso fazer um curso de vendas antes de vender, que o site precisa ficar bonito primeiro, que falta audiência, que falta dinheiro. Ele chama isso pelo nome: desculpa.
A alternativa que ele defende é direta. Construir o software, lançar incompleto mesmo e colocar para vender. Mostrar para os amigos, fazer uma landing page simples (hoje muito mais fácil com IA), publicar nas redes sociais e se expor. Ele lembra a frase do próprio Hormozi no vídeo original: "ação imperfeita vence hesitação perfeita". E completa que já viu gente muito mais talentosa do que ele ficar parada por vergonha ou por buscar um ponto de perfeição que nunca chega.
O efeito "o cara do software"
Uns 20 anos atrás, Deivison e um amigo importavam modems ADSL do Paraguai para vender, numa época em que as operadoras ainda não entregavam o aparelho junto com o plano de internet. Em menos de um mês, gente que ele nem conhecia já estava ligando perguntando se vendiam modem com pronta entrega. O negócio não durou, porque os modems vinham sem nota fiscal e davam problema de qualidade, mas a lição ficou: quando você se expõe, as pessoas passam a te associar àquilo.
É o mesmo mecanismo que ele usa para explicar como o eGestor cresceu. Não é da noite para o dia. Alguém fica sabendo que você fez um software de gestão, esquece, e um mês depois lembra. Divulgar o que está sendo construído, inclusive dentro da própria empresa, gera esse tipo de sorte, que na verdade não é sorte nenhuma: é o resultado de falar sobre o que você faz em vez de falar de futebol ou política.
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No início do eGestor, o processo era simples: um pouco de propaganda paga no Google Ads para termos como "controle de estoque" ou "controle financeiro", e contato direto com quem se cadastrava, muitas vezes pelo MSN. Deivison admite que não gostava de ligar para os leads, mas fazia porque precisava do dinheiro. E resume com uma comparação sobre dor nas costas: ele mesmo resolveu boa parte da sua lendo um livro do médico americano John Sarno sobre o tema, enquanto um sócio, com o mesmo problema, nunca chegou nem a comprar o livro. A diferença não era o método, era o quanto cada um sentia a dor.
Ele também recomenda mostrar o produto incompleto para o cliente, mesmo antes de estar pronto, só com as telas se for preciso. E cita um exemplo clássico de marketing que aprendeu na faculdade de administração: nos Estados Unidos, as vendas de bolo pronto em caixa, aquele em que só se adiciona água, dispararam quando o fabricante passou a pedir para a dona de casa "adicionar um ovo" na receita, mesmo sem necessidade real. As pessoas compram mais quando sentem que colocaram algo delas ali. Vale para bolo e vale para software: deixar o cliente opinar sobre o que ainda está em desenvolvimento cria esse mesmo senso de pertencimento, e ele costuma gostar disso.
Volume mata a sorte
Outra frase do Hormozi que Deivison recupera no vídeo é "volume negates luck", volume mata a sorte. A ideia é que quanto mais pessoas você conversa, menos aquilo depende de sorte e mais depende de conta. Ele usa a imagem do tambor dos barcos de guerra do filme Ben-Hur: é preciso manter um ritmo constante de conversas com clientes, seja cinco, seja vinte por semana.
Volume também resolve um problema comum entre quem cobra barato demais pelo próprio SaaS: o medo de dizer o preço e ouvir um não. Quando você fala com pouca gente, cada não pesa mais e a tendência é baixar o preço para evitar a rejeição. Quando você fala com muita gente, um não vira estatística, e fica mais fácil cobrar o que o produto realmente vale.
Deivison é claro sobre a ordem das coisas: primeiro vem o volume, a técnica vem depois. Ele mesmo não sabia técnica de vendas nem falar na frente de câmera quando começou, e melhorou aos poucos, gravando vídeo atrás de vídeo. Para quem quer estudar técnica, ele cita como referência o clássico SPIN Selling, de Neil Rackham, mas reforça que volume vem primeiro.
Nunca desperdice um lead
Um erro que Deivison vê com frequência: colocar propaganda no ar, o lead entra, olha o site, acha legal e vai embora, sem que a empresa aproveite esse contato. A recomendação é captar telefone e e-mail de cada lead, colocar numa lista de remarketing e manter contato periódico, seja por newsletter, por uma planilha útil relacionada ao problema do cliente ou por uma ferramenta simples que exija um novo cadastro para usar.
O eGestor sempre usou esse princípio: um lead que se cadastrou há meses e nunca fechou pode ser reativado com uma nova newsletter ou um novo material. O contato de hoje é o contrato de amanhã, mesmo quando o "hoje" já ficou para trás.
O conselho final: comece do jeito que der
Deivison fecha o raciocínio reforçando que não existe forma de começar com tudo perfeito. O software nunca vai estar totalmente pronto, o discurso de vendas nunca vai estar completamente afiado, e mesmo assim é preciso lançar, vender, ouvir o cliente e melhorar a partir daí. Para quem está com a ideia parada no papel, ou o domínio comprado e algumas linhas de código escritas sem sequência, o convite é literal: pare de esperar o momento perfeito e comece.
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