Product Led Growth, ou PLG, é um dos termos mais falados no mundo do SaaS — e também um dos mais mal compreendidos, especialmente por fundadores com perfil técnico. Neste episódio, Deivison Alves Elias explica o conceito, desmonta um equívoco muito comum entre programadores e compartilha exemplos concretos de como o PLG funciona na prática, inclusive dentro das suas próprias empresas de software.
O Que é PLG (Product Led Growth)?
PLG é uma estratégia de crescimento em que o próprio produto é o principal motor de aquisição, retenção e expansão de clientes. Em vez de depender de uma equipe de vendas para conquistar novos usuários ou de campanhas de marketing para gerar demanda, o produto é tão bom — e tão fácil de experimentar — que os próprios usuários o adotam, recomendam e expandem dentro das organizações.
O exemplo mais citado é o Slack. O software de comunicação corporativa não foi vendido de cima para baixo nas empresas, com o departamento de TI decidindo pela adoção. Aconteceu o inverso: funcionários começaram a usar a versão gratuita por conta própria. Quando um número suficiente de pessoas dentro da empresa estava usando, a pressão para comprar as funcionalidades premium ou expandir para mais usuários veio de dentro — não de um vendedor externo.
O Trello é outro exemplo próximo da realidade de muitos gestores brasileiros. Deivison Alves Elias relata que percebeu sua própria equipe adotando o Trello de forma espontânea, sem que ele tivesse determinado o uso da ferramenta. A adoção orgânica pelos funcionários cria uma pressão natural para a contratação — e o produto se vende antes que qualquer vendedor apareça.
O Grande Equívoco dos Programadores Sobre PLG
Aqui está o ponto central da discussão: a maioria dos programadores que ouve falar em PLG interpreta o conceito como fazer um software com muitas funcionalidades. A lógica implícita é: quanto mais features, mais valor o produto entrega, mais ele vai crescer sozinho.
Esse raciocínio é equivocado — e Deivison Alves Elias fala isso com base em experiência própria. Quando ele e sua equipe desenvolveram a primeira versão do Gestor — software de gestão para micro e pequenas empresas —, o produto estava tecnicamente bem construído. Mas a usabilidade era ruim. Tão ruim que ele se pergunta como o software chegava a vender.
Ao implementar testes de usabilidade — filmando usuários reais tentando executar tarefas no software sem nenhuma orientação —, a equipe percebeu a dimensão do problema. Havia pessoas que não encontravam botões, que se perdiam nos fluxos, que desistiam antes de completar ações básicas. E havia membros da equipe chamando os usuários de improdutivos por não entenderem o software.
A conclusão foi dura e necessária: o problema não era o usuário. Era o produto. A empresa tinha olhado para o software pela perspectiva técnica, não pela perspectiva do cliente.
PLG Começa com Entender o Cliente, Não com Adicionar Features
O verdadeiro ponto de partida para o PLG é a compreensão profunda de como o cliente resolve o problema hoje — antes de usar o seu software. Ele usa uma planilha de Excel? Contrata mais pessoas para fazer manualmente? Usa um processo informal e impreciso?
Entender o estado atual do cliente permite construir um produto que seja visivelmente superior àquela solução existente — e que essa superioridade seja perceptível rapidamente, sem que o cliente precise investir semanas de configuração para perceber o valor.
É esse conhecimento profundo do cliente que dá ao produto um tempero único: a escolha de onde colocar um botão, qual fluxo priorizar, que linguagem usar na interface. Dois softwares podem ter exatamente as mesmas funcionalidades, mas aquele desenvolvido por quem realmente conhece o cliente vai ser preferido — e indicado — porque parece que foi feito para aquela pessoa específica.
O Indicador Mais Importante do PLG: Tempo até o Valor
Deivison Alves Elias apresenta o conceito que considera central para avaliar o potencial PLG de um produto: quanto tempo leva para o cliente perceber o valor do software?
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Conheça o Vivendo de SaaS →Quanto mais rápido esse momento acontece — chamado de time to value —, mais alinhado o produto está com uma estratégia de PLG. Um exemplo concreto: um software de conversão de vídeo online. O usuário faz o upload do arquivo, paga se necessário, recebe o arquivo convertido. O valor foi percebido em minutos, sem instalação, sem configuração, sem onboarding. Esse tipo de produto tem tudo para crescer via PLG.
Na outra ponta, um software de gestão empresarial completo — como o Gestor — exige que o usuário cadastre produtos, configure categorias, importe estoque, integre com emissão de nota fiscal. Semanas podem se passar antes que o cliente veja um relatório significativo. Isso não significa que o produto é ruim, mas significa que ele não está naturalmente alinhado com PLG — e vai precisar de estrutura de vendas, onboarding ativo e acompanhamento humano para reter clientes.
Micro SaaS e PLG: Uma Combinação Natural
Uma das observações mais interessantes do episódio é a relação entre micro SaaS e PLG. Softwares menores, focados em resolver um único problema com excelência, tendem a demonstrar valor muito mais rapidamente do que plataformas completas.
Deivison Alves Elias ilustra isso com o seu segundo produto, o NF Mais — um emissor de notas fiscais eletrônicas. O software é gratuito até 15 notas por mês. O usuário se cadastra, faz uma configuração mínima, sobe o certificado digital e começa a emitir notas imediatamente. O valor é percebido no primeiro uso. Não há semanas de configuração, não há necessidade de onboarding extenso.
Esse é o motivo pelo qual o NF Mais está muito mais alinhado com PLG do que o Gestor. A complexidade do problema que resolve é menor, e isso permite que o usuário chegue ao valor mais rápido.
Erros Práticos que Impedem o PLG de Funcionar
Um exemplo citado no episódio ilustra bem como pequenos atritos no fluxo de cadastro podem destruir a taxa de conversão. Uma empresa tinha um sistema de validação de e-mail obrigatório antes de o usuário acessar o software para teste. O usuário se cadastrava, recebia um e-mail de confirmação, ia à caixa de entrada para clicar no link — e, no caminho, via um e-mail do chefe pedindo uma tarefa urgente. O software de teste era esquecido imediatamente.
Quando a empresa eliminou esse passo, o número de pessoas que completavam o cadastro e começavam a testar o produto aumentou significativamente — e, consequentemente, as conversões em clientes pagantes também.
Outros atritos que prejudicam o PLG:
- Formulários de cadastro com muitos campos desnecessários.
- Onboarding que exige configuração extensa antes de mostrar qualquer resultado.
- Interface confusa que obriga o usuário a buscar tutoriais para executar ações básicas.
- Funcionalidades principais escondidas atrás de muitos cliques.
PLG Não Significa Abandonar Vendas
Um ponto importante que Deivison Alves Elias deixa claro: PLG não é a única estratégia válida, e nem todo software consegue ou deve seguir esse caminho. O Gestor cresce com uma estrutura ativa de vendedores, implementação e onboarding — e isso é uma escolha consciente baseada na natureza do produto e do cliente.
PLG e vendas podem coexistir. Muitas empresas de sucesso usam PLG para a aquisição inicial — deixando o usuário experimentar e perceber valor — e depois têm um time de vendas que expande o uso dentro das organizações, no modelo conhecido como Product Led Sales.
O erro está em acreditar que adicionar funcionalidades sem parar vai, por si só, criar um produto que cresce sozinho. O crescimento via produto exige disciplina em UX, foco no tempo até o valor e entendimento profundo de como o cliente usa e percebe o software.
Conclusão
PLG é muito mais sobre remover atritos e entregar valor rapidamente do que sobre acumular funcionalidades. Para fundadores de SaaS com perfil técnico, o desafio não está em escrever código — está em sair da frente do computador, conversar com clientes reais, entender como eles enxergam o produto e construir uma experiência que os leve ao valor antes que a empolgação do cadastro esfrie. Esse é o caminho para um produto que cresce por si mesmo.
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