Por que alguém assina um software? A resposta parece óbvia — porque o software resolve um problema. Mas a realidade é mais complexa e fascinante. A motivação por trás da compra determina o churn, o preço que você pode cobrar, a estratégia de marketing que vai funcionar e até o modelo de negócio ideal. Deivison Alves Elias, fundador do eGestor e do canal Vivendo de SaaS, aprofunda esse tema revelando como a psicologia aplicada em escala é a verdadeira essência de qualquer negócio SaaS.
Cada nicho tem sua própria psicologia
Um dos erros mais comuns entre empreendedores de SaaS é tentar replicar estratégias que funcionaram em um nicho dentro de outro completamente diferente. O que funciona para vender um ERP para micro e pequenas empresas pode fracassar completamente para vender uma plataforma de e-commerce ou um software para clínicas médicas.
A razão está nas motivações dos compradores. Antes de pensar em funcionalidades, preços ou canais de venda, você precisa entender o que move psicologicamente o seu cliente a tomar a decisão de assinar um software. Existem quatro motivações principais que explicam a grande maioria das compras de SaaS.
Motivação 1: Medo
O medo é uma das forças mais poderosas na tomada de decisão humana. No contexto de software B2B, esse medo geralmente está ligado a não estar em conformidade com obrigações legais, perder dinheiro por falta de controle ou sofrer consequências graves pela ausência de um processo estruturado.
O eGestor é um exemplo claro. Empresários assinam o software principalmente pelo medo de não emitir nota fiscal corretamente, de ter problemas com o fisco ou de perder o controle financeiro da empresa. Quem vende movido pelo medo tende a ser um cliente de baixo churn, porque a dor que motivou a compra permanece presente — o risco de não usar o software é alto demais.
Para vender para esse perfil, mostre os riscos concretos de não contratar sua solução. Use evidências, dados e exemplos reais de problemas que acontecem quando a dor não é resolvida. O discurso precisa estar presente desde o site até o roteiro do vendedor.
Motivação 2: Ganância
Clientes motivados pela ganância querem crescer, vender mais, ganhar mais dinheiro. Plataformas de e-commerce são o exemplo perfeito: o lojista assina empolgado imaginando que vai ficar rico com a loja virtual. O churn, nesse caso, tende a ser alto — especialmente no início — porque a realidade bate na expectativa.
Como explicou o cofundador da Tray (uma das maiores plataformas de e-commerce do Brasil): o cliente se cadastra, preenche algumas configurações, mas não avança. A solução que encontraram foi criar o conceito de "inauguração da loja": o cliente só era considerado ativo após completar toda a configuração e inaugurar oficialmente sua loja na plataforma. Isso reduziu drasticamente o churn inicial.
Quando a motivação é ganância, você pode cobrar mais — o cliente está empolgado e vislumbra retorno. Mas precisa gerenciar a expectativa logo no início da jornada, ou vai perder esse cliente rapidamente.
Motivação 3: Status
Alguns compradores querem parecer modernos, inovadores ou à frente dos concorrentes. O status como motivação é poderoso especialmente em mercados onde a adoção de tecnologia é vista como diferencial competitivo.
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Conheça o Vivendo de SaaS →Para vender para esse perfil, o discurso precisa ser aspiracional. Posicione seu software como algo de prestígio, mostre como outros empresários do setor já utilizam a solução e comunique inovação. A percepção de valor aqui está muito além das funcionalidades — está na imagem que o uso do software projeta.
Motivação 4: Comodidade
A comodidade é sobre simplificar a vida, reduzir dor de cabeça e automatizar o que é tedioso. Clientes motivados pela comodidade tendem a ter churn baixo, porque uma vez que o software passa a fazer parte do dia a dia, a fricção de trocar é alta. O status quo vira aliado da retenção.
Para vender comodidade, mostre concretamente o que o cliente vai deixar de fazer ou preocupar com o seu software. Quanto tempo vai economizar? Quantos erros vai evitar? Qual processo que hoje exige três pessoas vai rodar automaticamente? Foque na redução de esforço e na paz de espírito que o produto proporciona.
Como a motivação define preço, churn e marketing
Conhecer a motivação principal do seu cliente não é um exercício filosófico — tem impacto direto nas métricas do seu SaaS. Softwares vendidos por ganância geralmente permitem cobrar mais, recuperando o CAC mais rapidamente, mas precisam de estratégias robustas de onboarding para segurar o cliente nos primeiros meses.
Softwares vendidos por comodidade ou medo costumam ter churn mais baixo e LTV mais alto, mesmo com ticket menor. A previsibilidade da receita tende a ser maior. Já softwares vendidos por status dependem de construção de marca e reputação — o produto em si precisa ser percebido como referência no mercado.
Deivison Alves Elias exemplifica com a própria operação: para o cliente final do eGestor, o discurso é de medo e comodidade. Para os revendedores da plataforma, o discurso é de ganância — são mostrados casos de sucesso, números reais de faturamento e o potencial de construir um negócio de revenda de software.
O caso dos softwares para clínicas médicas
Um exemplo que ilustra bem a complexidade dos nichos é o software para clínicas médicas. Nesse modelo, quem paga é o médico, mas quem usa é a secretária. Isso cria dois públicos com motivações completamente diferentes: o médico (ocupado, com pouco tempo, difícil de acessar) e a secretária (usuária do dia a dia, mas sem poder de decisão de compra).
O vendedor precisa conquistar a confiança da secretária para que ela se torne uma advogada interna do produto junto ao médico — o real decisor. É um desafio de vendas em dois níveis que exige abordagens e discursos distintos para cada interlocutor. Ignorar essa dinâmica é garantia de churn ou de negócio que nunca decola.
SaaS é psicologia aplicada em escala
Antes de escrever qualquer linha de código, estude seu nicho. Crie conteúdo para o público que você quer atingir, ouça as conversas desse mercado, entenda quais dores tiram o sono dessas pessoas e o que as faria pagar para ter isso resolvido. Essa compreensão vai determinar não apenas como você vende, mas o que você constrói.
Como resume Deivison Alves Elias: "Quando alguém me pergunta qual é a melhor estratégia para o seu SaaS, eu digo: depende da motivação do seu cliente. Tu tem que entender a motivação para prevenir o churn, para definir o preço, para ajustar o marketing, para moldar o produto. No final das contas, SaaS não é só software — SaaS é psicologia aplicada em escala."
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