Por Deivison Alves Elias
Por incrível que pareça, o mercado de software como serviço no Japão tem muito mais em comum com o Brasil do que a maioria das pessoas imagina. Ao assistir a um vídeo aprofundado sobre os desafios e oportunidades do SaaS japonês, a quantidade de paralelos com a realidade brasileira foi surpreendente — e reveladora. Entender essas semelhanças pode mudar a forma como você pensa sobre o seu próprio negócio.
O Foco no Mercado Interno: Vantagem ou Armadilha?
Tanto no Japão quanto no Brasil, as empresas de software como serviço têm uma tendência clara de focar no mercado interno. No caso japonês, a justificativa é óbvia: a barreira cultural e linguística é enorme para qualquer estrangeiro que tente entrar no mercado. Isso cria um espaço natural e protegido para as empresas locais.
No Brasil, o fenômeno é parecido. O fundador do Pipefy chegou a ser desafiado por um americano que dizia que os brasileiros estavam mal acostumados com a barreira do idioma e por isso desenvolviam SaaS apenas para o mercado local. Há verdade nessa crítica — mas também há outra perspectiva.
Começar pelo mercado local não é necessariamente fraqueza. Para quem está começando sem investidor, sem grande equipe e sem experiência global, conquistar o mercado brasileiro pode ser a estratégia mais inteligente disponível. O mercado brasileiro é enorme, tem demandas específicas que produtos estrangeiros raramente atendem bem, e o conhecimento local é uma vantagem competitiva real. Ganhe dinheiro primeiro, estruture a empresa, e depois expanda se quiser.
Ser Número Um no Brasil Não Significa Nada Globalmente
Essa é uma das constatações mais duras — e importantes — do mercado de SaaS fora do eixo Vale do Silício. Se você se torna o número um em uma categoria nos Estados Unidos, você está praticamente entre os maiores players do mundo naquela categoria. Se você se torna número um no Brasil ou no Japão, isso tem pouco peso no cenário global.
O mercado americano e europeu funcionam como validadores globais de uma forma que os mercados brasileiro e japonês simplesmente não conseguem replicar. Isso não significa que dominar o mercado local seja inútil — significa que você deve estar consciente das limitações de escala que esse caminho impõe.
O Problema do Investimento: Brasil e Japão no Mesmo Barco
Outra semelhança marcante: a escassez de investimento. O mercado japonês reclama de poucos aportes e baixa atividade de venture capital em comparação com os EUA e Europa. No Brasil, a realidade é a mesma.
Uma empresa SaaS brasileira com a mesma receita recorrente de uma americana será avaliada com múltiplos menores, simplesmente porque o mercado de capital de risco brasileiro não tem a profundidade e a liquidez do americano. Isso é um dado da realidade que todo empreendedor brasileiro precisa ter na cabeça ao planejar sua estratégia de crescimento e eventual saída.
O Medo dos Players Internacionais — e o Que Realmente Acontece
Quando o eGestor foi fundado, em 2006 e com foco mais intenso a partir de 2009, uma das maiores preocupações era a entrada de grandes players internacionais no mercado de gestão para micro e pequenas empresas. A SAP havia anunciado o SAP Business ByDesign com planos de atacar justamente esse segmento na América Latina.
Quer viver de SaaS? Aprenda a criar e escalar produtos SaaS com quem já viveu isso na prática.
Conheça o Vivendo de SaaS →O que aconteceu? A SAP nunca entrou com força no mercado de micro e pequena empresa brasileira. A burocracia fiscal do Brasil — nota fiscal eletrônica com diferentes padrões por prefeitura, NFCE, nota de serviço — tornou o investimento inviável para uma empresa estrangeira sem profundo conhecimento local. Quem cresceu e dominou o mercado foi um player local: o Conta Azul.
Depois vieram a Sage e a Intuit com o Quickbooks, comprando o Zero Paper e tentando dominar o mercado com preços absurdamente baixos. Assustador no início, mas o resultado foi diferente do esperado. Os clientes não migraram em massa, as vendas não foram prejudicadas, e tanto a Sage quanto a Intuit acabaram saindo do Brasil anos depois.
A lição é poderosa: o mercado local tem barreiras reais — culturais, linguísticas, fiscais, regulatórias — que protegem empresas que conhecem o terreno.
A Cultura do Comprador: O Japão Conservador e o Brasil Relacional
No Japão, vender software depende muito de vendedores humanos porque o empresário japonês é conservador. Ele não quer que o software mude seus processos internos de forma radical. O vendedor precisa demonstrar não apenas que o produto é bom, mas que ele vai preservar a cultura e os fluxos de trabalho da empresa.
No Brasil, a dinâmica é diferente — mas o papel humano na venda continua sendo central. O brasileiro é relacional. Gosta de conversar, de ouvir a voz, de sentir que está negociando com uma pessoa de verdade. O WhatsApp com áudio é popular exatamente por isso: ele aproxima, humaniza, cria conexão.
Existe uma resistência comum entre empreendedores SaaS brasileiros em montar equipes de vendas. Querem que tudo seja automatizado, que a inteligência artificial responda leads e feche contratos. Mas quem vende software para pequenas empresas no Brasil sabe: o fechamento geralmente precisa de um ser humano do outro lado.
Por Que os EUA Compram Software Online Sem Falar com Ninguém
Nos Estados Unidos, o modelo de compra de software self-service funciona porque o custo de pessoal é altíssimo. Contratar uma equipe de vendas para um produto de ticket baixo simplesmente não é sustentável economicamente. Por isso, o mercado americano foi moldado para comprar sozinho, sem interação humana.
No Brasil, o custo de pessoal é diferente. É possível ter uma equipe de pré-vendedores e closers atendendo leads de um produto de menor ticket e ainda assim ser lucrativo. E essa equipe faz diferença — porque o perfil do comprador brasileiro valoriza a conversa. Copiar o modelo americano de vendas sem considerar essa diferença cultural pode ser um erro caro.
O Que Aprender com Tudo Isso
Se você está construindo um SaaS no Brasil, há lições claras que emergem da comparação com o mercado japonês:
- Focar no mercado local pode ser uma estratégia inteligente, especialmente no início
- Conheça as especificidades regulatórias e culturais do seu mercado — elas são barreiras que protegem você de grandes players estrangeiros
- O mercado de investimento no Brasil é limitado — planeje crescer com eficiência operacional
- Não subestime o papel de vendedores humanos. O brasileiro quer conversar antes de comprar
- Grandes players estrangeiros raramente dominam mercados com alta especificidade local. Sua vantagem é o conhecimento do terreno
O mundo do SaaS não é apenas Vale do Silício. Existem mercados vibrantes em todos os continentes, cada um com suas particularidades e oportunidades. Entender onde você está competindo é o primeiro passo para construir uma empresa que dura.
Gostou do conteúdo? Descubra como construir negócios SaaS lucrativos com mentoria especializada.
Acessar o Vivendo de SaaS →