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Como Montar uma Equipe de Vendas de SaaS do Zero: O Guia Prático de Inside Sales

👤 Deivison 📅 Jun 26, 2025 ⏱ 11 min de leitura

Montar uma equipe de vendas para um software como serviço é um dos desafios mais complexos que um fundador enfrenta. Como contratar as pessoas certas? Como estruturar o discurso de vendas? Quando apostar em Inbound, quando ir de Outbound? Em um episódio especial e descontraído do canal Vivendo de SaaS, Deivison Alves Elias conversou com Ricardo Golzer, seu sócio responsável pelas equipes de vendas do eGestor, para responder exatamente essas perguntas. A conversa foi improvisada em uma sexta-feira à tarde, mas o conteúdo é denso e prático.

O Ponto de Partida: Antes de Montar a Equipe

Ricardo Golzer deixou claro desde o início que a montagem de uma equipe de vendas pressupõe um trabalho anterior bem feito. Antes de contratar o primeiro vendedor, o fundador precisa ter:

  • Produto validado: não precisa estar absolutamente pronto, mas precisa ser vendável. Já deve ter clientes reais usando e pagando.
  • Conhecimento profundo do cliente ideal: quem é o decisor, quem sente a dor do problema, qual é o porte da empresa, quais são as soluções que o produto entrega para esse perfil.
  • Experiência como vendedor: o próprio fundador deve ter feito as primeiras vendas. Quem cria o software precisa entender a dor de vender antes de ensinar outros a fazer isso.

Segundo Ricardo, quem fez esse tema de casa chega ao momento de montar a equipe sendo quase um especialista no segmento que está entrando. Já conversou com usuários reais, mapeou o que o cliente tem interesse e o que não tem, e sabe o que o software vai ser e o que não vai ser. Esse conhecimento é o insumo principal para treinar os primeiros vendedores.

Os Primeiros Passos: Inbound ou Outbound?

A primeira decisão estratégica ao montar uma equipe de vendas é definir a principal fonte de leads. Ricardo apresentou os dois cenários de forma direta:

Se você tem capital para propaganda paga (Inbound)

Com capital disponível para anúncios, o caminho natural é gerar leads por Inbound: comprar palavras-chave no Google, produzir conteúdo, criar landing pages. Os leads chegam de forma mais quente, pois já demonstraram interesse ao buscar uma solução.

Nesse cenário, Ricardo recomenda começar com dois pré-vendedores (SDRs) e um vendedor. O próprio fundador ainda participa das vendas nessa fase, porque tem o conhecimento de causa para passar para o time e para cobrir agendas quando necessário.

Se você não tem capital para anúncios (Outbound)

Sem dinheiro para propaganda, mas com dinheiro para contratar pessoas, o caminho é o Outbound: desenvolver listas de prospects, usar ferramentas para trabalhar essas listas e fazer prospecção ativa por ligação e mensagem.

Com duas ou três pessoas fazendo Outbound, as primeiras vendas começam a acontecer. E é exatamente nesse momento, nas primeiras conversas com leads que compraram ou que não compraram, que o time começa a aprender o que realmente funciona, ajustando o discurso, identificando o perfil de cliente que converte melhor e refinando o ICP (Ideal Customer Profile).

O valor das primeiras vendas vai além da receita

Ricardo fez um ponto importante: as primeiras vendas não valem apenas pelo dinheiro que geram. Elas geram feedback de produto (o que está faltando), feedback de processo (onde o discurso está falhando) e aprendizado sobre quem realmente compra, que vai ser usado para tornar a prospecção cada vez mais precisa.

A Estrutura do Discurso de Vendas

Um dos momentos mais práticos da conversa foi quando Ricardo detalhou como estruturar o discurso básico de vendas para os primeiros vendedores. Ele separou em dois níveis: o discurso do pré-vendedor (SDR) e o discurso do vendedor (closer).

Discurso do pré-vendedor (SDR)

O SDR faz o primeiro contato, qualifica o lead e agenda a reunião com o vendedor. A estrutura básica que Ricardo recomenda para essa ligação tem quatro elementos:

  1. Apresentação: quem está ligando, de onde, com que propósito. Uma conversa profissional começa com a pessoa saber com quem está falando.
  2. Rapport: uma quebra de gelo para que o lead se sinta à vontade. Isso é especialmente importante em ligações frias, onde o prospect não esperava o contato e pode estar no meio de outra atividade.
  3. Qualificação: verificar se o lead tem fit real com o produto. Perguntas que revelam porte da empresa, quem é o decisor, qual é a dor específica que o produto resolve.
  4. Passagem de bastão: agendar a reunião com o vendedor de forma clara e com compromisso real do lead.

Ricardo destacou um erro muito comum que vê em empreendedores novos tentando vender: atropelar a conversa. Apresentar o produto sem antes conquistar a atenção do lead. Se o interlocutor não está presente mentalmente, o melhor discurso do mundo não vai funcionar.

Discurso do vendedor (closer)

Na reunião agendada pelo SDR, o vendedor segue uma estrutura diferente:

  1. Retomada: resgatar o contexto da conversa anterior com o SDR, para que o lead se lembre por que agendou a reunião.
  2. Validação de solução: mostrar como o produto resolve especificamente o problema que o lead tem, conectando funcionalidades com dores reais.
  3. Negociação: condições, planos, prazo de decisão.

Como Treinar Vendedores Novos

Contratar pessoas sem experiência em vendas é comum para empresas que estão começando. Ricardo compartilhou o processo de treinamento que o eGestor usa e que qualquer fundador pode replicar:

Ouvir ligações reais

O primeiro passo é fazer o novo vendedor ouvir ligações gravadas de vendedores experientes. Se ainda não há ligações disponíveis, o fundador faz uma ligação demonstrativa e o novo vendedor assiste.

Montar o próprio pitch intuitivo

Antes de receber qualquer treinamento formal, o novo vendedor tenta estruturar como venderia instintivamente. Esse exercício revela o que a pessoa já traz de habilidades naturais e o que precisa ser corrigido.

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Roleplay progressivo

O coordenador ou o fundador liga para o novo vendedor fingindo ser um prospect. O vendedor tenta vender. Depois o papel inverte. Esse processo, conhecido como roleplay, cria uma zona segura para errar e aprender antes de enfrentar um lead real.

Ricardo citou o livro SPIN Selling, de Neil Rackham, que defende exatamente esse princípio: treinar em situações seguras para criar a "casca" de segurança necessária para ligar para um lead desconhecido sem travar. Quem não constrói essa casca com treinamento pode abandonar a função achando que não é para ela, quando na verdade faltou apenas a oportunidade de errar em ambiente protegido.

O Debate sobre Home Office para Times de Vendas

Ricardo foi direto ao expressar sua posição: para times de vendas em formação, especialmente em empresas que estão começando, o trabalho presencial entrega resultados melhores. Os motivos que ele apresentou:

  • Visibilidade das dificuldades: no presencial, o coordenador vê quando o vendedor está passando trabalho em uma ligação e pode intervir, dar suporte ou dar feedback imediato. No home office, esse momento se perde.
  • Retroalimentação do processo: vendedores presenciais compartilham naturalmente o que ouviram dos clientes, o que está funcionando e o que não está. No home office, essas informações tendem a ficar retidas com o indivíduo.
  • Vínculo emocional com a empresa: Ricardo relatou que no eGestor, vendedoras que chegaram inseguras e chegaram a chorar nos primeiros meses se tornaram excelentes profissionais porque tinham suporte presencial. Em home office, essas pessoas simplesmente pediriam demissão sem que ninguém percebesse o que estava acontecendo.
  • Construção de cultura: vendedores que trabalham presencialmente "vestem a camisa" de forma diferente de quem trabalha remotamente. E quem veste a camisa entrega mais do que o contratado, porque se importa com o resultado da empresa.

Ricardo reconheceu que existem empresas com times de vendas remotos bem-sucedidos, mas reiterou que essa não é sua recomendação para quem está começando.

Como Contratar Melhor e Errar Menos

A parte de contratação foi um dos pontos mais detalhados da conversa. Ricardo listou as características que busca em candidatos para posições comerciais:

Pessoas comunicativas e interessantes

Não apenas comunicativas no sentido de falar muito, mas interessantes: pessoas que sabem brincar, entrar em uma conversa, criar conexão com alguém que não as conhece. No processo seletivo, uma brincadeira simples revela muito sobre como o candidato vai lidar com um prospect resistente.

Pessoas que estudam e se dedicam

O eGestor prioriza candidatos que leram livros, fizeram cursos ou se dedicaram profundamente a algo ao longo da vida, independentemente do que foi. Disciplina e capacidade de aprendizado são mais importantes do que experiência anterior em vendas.

Coachability: a habilidade de ser ensinável

Ricardo citou a coachability como uma das características mais importantes. Um time de vendas precisa replicar processos, não inventar. Pessoas que rejeitam feedbacks, que acham que já sabem tudo ou que resistem a mudanças de abordagem, não funcionam em um ambiente comercial estruturado.

O teste que eles aplicam nas entrevistas é simples e revelador: pedem para o candidato vender algo (uma caneta, um objeto qualquer) da forma que achar melhor. O candidato vai fazer de forma errada, pois não tem o processo. Então o entrevistador dá feedback e pede para fazer novamente. Se o candidato consegue incorporar alguma mudança imediata, ele tem coachability. Se repete exatamente o mesmo comportamento ignorando o feedback, não tem.

Identificar decisor e senteador

Ricardo também alertou para um erro clássico em vendas B2B: falar com a pessoa errada. Em vendas de software, normalmente existe o decisor (quem assina o contrato) e o senteador (quem sofre o problema e vai usar o produto diariamente). São pessoas diferentes e precisam ser abordadas de forma diferente.

Falar apenas com o decisor sem envolver o senteador pode levar ao sabotagem inconsciente do produto, pois quem vai usar não entendeu o valor e não se sentiu parte da decisão. Falar apenas com o senteador sem alcançar o decisor pode fazer a venda morrer no processo, pois a pessoa com quem você negociou não tem autonomia para comprar.

Indicadores de Performance para Pré-vendedores

Para os SDRs (pré-vendedores), Ricardo destacou que o principal indicador de performance é a quantidade de atividades: ligações realizadas, mensagens enviadas, follow-ups feitos. Um pré-vendedor que desiste rápido, que não insiste na tentativa de contato, já demonstra desde cedo que não vai sobreviver ao ritmo necessário para fazer Outbound com resultado.

E sobre os leads que não converteram, Ricardo fez um alerta: muitas equipes cometem o erro de tratar um lead não convertido como um lead morto. Na realidade, um lead que demonstrou interesse e não fechou pode estar no momento errado, e com o time mais treinado e com o produto mais maduro, pode comprar em uma segunda abordagem. Nutrir esses leads com e-mail e trabalhar o remarketing é parte da estratégia de aproveitamento de leads.

A Visão de Longo Prazo: Parcerias e Canais

Ricardo também mencionou a importância de olhar para canais alternativos de aquisição desde o início do processo de vendas. Em toda venda, geralmente há terceiros envolvidos: outros prestadores de serviço, contadores, consultores, implementadores. Esses parceiros podem se tornar fontes de indicação futura se forem tratados como aliados desde o início.

Construir um programa de parceiros e revendedores é um passo mais avançado, mas começar a identificar quem são esses potenciais parceiros desde as primeiras vendas coloca a empresa em uma posição muito melhor quando chegar o momento de estruturar esse canal.

O Essencial para Começar Vendendo SaaS Hoje

A conversa entre Deivison Alves Elias e Ricardo Golzer no canal Vivendo de SaaS trouxe um guia prático que qualquer fundador de SaaS pode começar a aplicar imediatamente. Os pontos centrais são:

  1. Defina sua fonte de leads (Inbound ou Outbound) com base no capital disponível
  2. O fundador vende primeiro, antes de contratar qualquer pessoa
  3. Estruture um discurso básico com apresentação, rapport, qualificação e passagem de bastão
  4. Treine por roleplay antes de colocar vendedores novatos em contato com leads reais
  5. Contrate pessoas ensináveis (coachability), comunicativas e que se dedicam a aprender
  6. Para times em formação, o presencial entrega mais resultado do que o home office
  7. Não abandone leads que não converteram: crie trilhas de nutrição e remarketing

Para aprofundar nos temas de Inside Sales para SaaS, o canal Vivendo de SaaS, conduzido por Deivison Alves Elias, traz episódios regulares em português sobre gestão, vendas e crescimento de empresas de software como serviço.

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