crescimento outbound receita previsivel saas sdr vendas

Receita Previsível: Como Montar uma Máquina de Vendas para o seu SaaS

👤 Deivison 📅 Ago 14, 2020 ⏱ 12 min de leitura

Se você tem uma empresa de software como serviço e sente que suas vendas dependem de sorte ou de esforço heróico do time comercial, o conceito de Receita Previsível foi criado exatamente para resolver esse problema. No canal Vivendo de SaaS, Deivison Alves Elias trouxe seu sócio Ricardo para um bate-papo aprofundado sobre o livro de Aaron Ross, que é considerado um dos mais importantes já escritos sobre como estruturar vendas em empresas SaaS.

O que é o livro Receita Previsível e por que ele importa para o SaaS

Aaron Ross era executivo de marketing na Salesforce, uma das maiores empresas de software como serviço do mundo. Lá dentro, ele foi o responsável por criar um processo que gerou mais de 100 milhões de dólares em MRR (receita recorrente mensal) para a companhia. O livro documenta exatamente como ele fez isso: construindo uma máquina de vendas que funciona de forma previsível e escalável, independente de heróis ou de talentos individuais.

A Salesforce hoje fatura entre sete e oito bilhões de dólares por ano. O processo que Aaron Ross estruturou foi um dos pilares desse crescimento. Entender o que ele fez é, portanto, essencial para qualquer fundador ou gestor de SaaS que queira escalar suas receitas sem depender de improviso.

O mito de contratar mais vendedores

Um dos erros mais comuns que gestores cometem quando precisam aumentar as vendas é contratar mais vendedores. A lógica parece simples: se com 10 vendedores tenho 10 vendas, com 20 terei 20. Mas isso é um mito. Deivison e Ricardo discutem exatamente esse ponto, reforçado também por Marc Benioff, fundador da Salesforce, em outro livro.

O problema não é a quantidade de vendedores, mas sim a ausência de um processo estruturado. Contratar mais vendedores sem ter demanda, sem ter oportunidades de negócio qualificadas para alimentar cada um deles, é um desperdício de tempo e dinheiro. O vendedor precisa ter a cadeira aquecida, ou seja, ele precisa receber oportunidades prontas para trabalhar, não ser jogado à sorte para se virar.

Os três pilares da Máquina de Vendas Previsível

Aaron Ross estrutura o conceito em torno de três pilares fundamentais. Cada um deles é indispensável para que a máquina funcione de verdade.

Primeiro pilar: gerar leads de forma previsível

O primeiro e mais importante pilar é a geração de leads de forma consistente e previsível. Não adianta ter vendedores prontos se não existe um fluxo constante de oportunidades chegando até eles. A previsibilidade começa aqui: com o tempo, você acumula estatísticas e passa a saber exatamente quantos e-mails de prospecção geram quantas respostas, quantas respostas viram oportunidades qualificadas e quantas oportunidades viram vendas fechadas. Com esses números em mãos, você consegue literalmente comprar crescimento para a sua empresa, calculando com antecedência quanto custo e retorno cada novo vendedor vai representar.

Segundo pilar: ter pessoas focadas exclusivamente em prospectar

O segundo pilar é a separação de papéis dentro do time comercial. Um dos grandes erros é pedir para o vendedor prospectar e vender ao mesmo tempo. O problema disso é que o vendedor ama vender e detesta prospectar. Quando ele tem oportunidades, vende. Quando esgota as oportunidades, volta a prospectar. O resultado é a famosa sanfona de vendas: um mês de pico, dois meses de baixa, um mês de pico de novo. Não há regularidade, não há previsibilidade.

A solução apresentada no livro é criar a figura do SDR (Sales Development Representative), chamado no Brasil de pré-vendedor. O SDR é responsável exclusivamente por prospectar: encontrar potenciais clientes, fazer o contato inicial, entender se existe uma dor que o produto pode resolver e, quando identificada uma oportunidade real, passar o bastão para o vendedor. O vendedor, por sua vez, foca 100% do tempo em vender. Cada um faz o que faz melhor, e a máquina não para. Veja na prática como isso funciona em um SaaS brasileiro: a máquina de vendas de um software que fatura 8 dígitos.

Essa separação também reduz custos: o SDR não precisa ter o mesmo nível de experiência e salário de um vendedor sênior, o que torna o time mais eficiente do ponto de vista financeiro.

Terceiro pilar: ferramentas adequadas para escalar

O terceiro pilar são as ferramentas. Sem tecnologia para acompanhar os números, organizar as listas de prospecção e registrar o histórico de cada lead, a operação se torna caótica. O SDR perde oportunidades, esquece de dar retorno, não consegue mensurar o próprio desempenho e o gestor fica no escuro sobre o que está funcionando ou não.

Quando o livro foi escrito, criar e gerenciar listas era um trabalho muito mais manual. Hoje existem dezenas de ferramentas que automatizam boa parte desse processo: plataformas de CRM, ferramentas de prospecção no LinkedIn como o Sales Navigator, softwares que ajudam a identificar o perfil de cliente ideal e a montar listas qualificadas. No Brasil, empresas como Ramper, Spotter e Leads2b são citadas como referências nesse ecossistema.

O Cold Email 2.0: como prospectar sem incomodar

Aaron Ross tinha um problema com as ligações frias tradicionais. Na maioria das vezes, o potencial cliente se sente invadido, interrompido no meio do seu dia, sem nenhum contexto sobre quem está ligando ou por que deveria ouvir. Esse desconforto prejudica qualquer conversa antes mesmo dela começar.

A solução que ele desenvolveu foi o Cold Email 2.0. A ideia central é simples: em vez de ligar para o cliente no pior momento possível, enviar um e-mail curto e direto. O e-mail chega na caixa de entrada do cliente e ele responde quando tiver disponibilidade, sem se sentir pressionado. Não existe a sensação de estar sendo interrompido.

O formato que funcionou foi surpreendentemente simples. E-mails longos, cheios de argumentos de venda e call to action, não tiveram boas taxas de resposta. E-mails curtos, com uma única pergunta objetiva como "quem é o responsável pela área X na sua empresa? Eu trabalho com isso e gostaria de conversar," tiveram resultados muito superiores. A pessoa que recebeu o e-mail ou se identificava como o decisor e respondia diretamente, ou indicava a pessoa certa. De qualquer forma, a porta era aberta sem desgaste.

Quer viver de SaaS? Aprenda a criar e escalar produtos SaaS com quem já viveu isso na prática.

Conheça o Vivendo de SaaS →

Outro ponto importante é que o e-mail funciona como uma semente de reconhecimento de marca. Mesmo que o cliente não responda na primeira vez, quando o SDR ligar depois, a pessoa já terá visto o nome da empresa e a conversa começa com um contexto, não no frio absoluto. Além disso, o e-mail fica no histórico, e o cliente pode retomar o contato quando o momento for oportuno para ele.

Criação de listas e o Perfil de Cliente Ideal (ICP)

Antes de sair prospectando, é fundamental saber para quem prospectar. Isso começa pela definição do ICP (Ideal Customer Profile), o perfil de cliente ideal da empresa. Quais são as características da empresa que mais se beneficia do produto? Qual o porte, o setor, o tipo de dor? Quem dentro dessa empresa toma a decisão de compra?

A Salesforce, por exemplo, precisava de grandes contas corporativas. O marketing da empresa atraía muitas pequenas empresas, que não eram o perfil ideal. Foi a metodologia de outbound estruturada por Aaron Ross que permitiu à Salesforce ir atrás das contas certas de forma direcionada.

A analogia usada no livro é perfeita: o inbound marketing é como pescar com rede. Você lança a rede e pega de tudo: pequenos peixes, lixo, oportunidades fora do perfil. O outbound estruturado é como pescar com arpão. Você escolhe o peixe que quer e vai atrás diretamente. Muito mais eficiente quando você sabe exatamente quem quer alcançar.

Com o ICP definido, o próximo passo é criar listas de prospects. Hoje esse trabalho está muito mais simples do que era quando o livro foi escrito. O LinkedIn oferece ferramentas como o Sales Navigator que permitem filtrar empresas e decisores com alto nível de precisão. Plataformas especializadas em geração de leads vendem listas já segmentadas pelo perfil desejado. O processo que antes demandava semanas de pesquisa manual hoje pode ser feito em horas.

O papel do SDR e a passagem de bastão

O SDR fica posicionado entre o time de marketing e o time de vendas. Ele recebe listas de contatos, prospecta ativamente, envia os e-mails de conexão e, quando identifica interesse genuíno, qualifica a oportunidade. Essa qualificação é crucial: o SDR não deve passar para o vendedor qualquer lead que demonstrou algum interesse superficial. Ele precisa verificar se o lead tem o perfil ideal, se existe uma dor real que o produto resolve e se há disposição para conversar com um especialista.

Quando a oportunidade está qualificada, acontece a passagem de bastão para o vendedor. Esse momento precisa ser feito com cuidado: o SDR apresenta o lead ao vendedor com contexto, conta um pouco da história da conversa e explica por que aquela pessoa tem potencial de se tornar cliente. Isso faz toda a diferença na recepção do vendedor: em vez de receber um nome frio em uma lista, ele recebe um lead que já foi aquecido, que já sabe quem é a empresa e que está aberto para conversar.

O vendedor, por sua vez, dá feedback ao SDR sobre a qualidade das oportunidades que recebe. Esse feedback fecha o ciclo e permite ao SDR calibrar cada vez melhor o seu processo de qualificação. Ferramentas como o Spotter facilitam esse fluxo de comunicação, permitindo que o vendedor avalie as oportunidades recebidas com notas e comentários.

O funil em Y: combinando inbound e outbound

Uma das grandes contribuições do modelo de Receita Previsível é a possibilidade de combinar as duas estratégias no mesmo funil. O inbound gera leads que chegam espontaneamente, atraídos por conteúdo, SEO, redes sociais ou indicações. O outbound gera oportunidades de forma ativa, por meio da prospecção estruturada. As duas correntes alimentam o mesmo time de vendas.

A ressalva importante, discutida por Deivison e Ricardo com base na experiência prática, é que pode ser mais eficiente separar vendedores para cada canal. Um lead que chegou pelo inbound está em um estágio de relacionamento diferente de um lead que foi prospectado no outbound. Misturar os dois no mesmo fluxo pode fazer com que o vendedor priorize o que for mais fácil e deixe oportunidades para trás. Separar pode ajudar a mensurar os resultados de cada canal com mais precisão.

Como o modelo de Receita Previsível se aplica ao SaaS brasileiro

O livro foi escrito com base na realidade americana, mas seus princípios se aplicam perfeitamente ao mercado brasileiro. Algumas adaptações são necessárias, especialmente na parte de criação de listas, já que nem todo perfil de cliente ideal está no LinkedIn ou em bases de dados disponíveis comercialmente. Para pequenas empresas ou nichos muito específicos, pode ser necessário fazer um trabalho mais artesanal de inteligência comercial.

Deivison menciona também a figura do BDR (Business Development Representative), que seria responsável justamente por essa etapa de inteligência comercial: pesquisar o mercado, identificar as melhores empresas-alvo e construir as listas que o SDR vai trabalhar. Em empresas menores, essas funções podem ser acumuladas por uma só pessoa, mas o importante é que o processo exista e seja seguido.

O ecossistema de ferramentas no Brasil já está bastante maduro para suportar essa estrutura. Além das ferramentas já mencionadas, há opções como a RD Station para automação de inbound, CRMs nacionais e internacionais adaptados ao mercado local, e uma crescente oferta de consultorias e cursos especializados no modelo de Receita Previsível.

Por onde começar

Se você está começando a estruturar a máquina de vendas da sua empresa SaaS, o caminho sugerido pela metodologia é o seguinte:

  1. Defina o seu ICP: antes de qualquer prospecção, saiba exatamente para quem você quer vender e quem toma a decisão de compra dentro dessas empresas.
  2. Crie listas qualificadas: use LinkedIn, ferramentas especializadas ou pesquisa manual para montar listas do seu perfil de cliente ideal.
  3. Contrate ou designe um SDR: alguém com foco exclusivo em prospectar, sem a pressão de fechar vendas.
  4. Implemente o Cold Email 2.0: e-mails curtos, diretos, com o objetivo de abrir portas, não de vender na primeira mensagem.
  5. Adote ferramentas de CRM e prospecção: para acompanhar números, organizar leads e garantir que nada se perca.
  6. Crie um processo de passagem de bastão: com feedback do vendedor para o SDR, para calibrar a qualificação continuamente.
  7. Meça tudo: com o tempo, você terá os números para saber exatamente o que esperar de cada novo investimento no time comercial.

Conclusão

O livro Receita Previsível de Aaron Ross é uma leitura obrigatória para qualquer empreendedor de SaaS. O que ele propõe não é apenas uma estratégia de vendas, mas uma mudança de mentalidade: sair do improviso e construir uma máquina que funciona de forma consistente, mensurável e escalável. Separar os papéis de prospecção e venda, adotar o Cold Email 2.0, construir listas qualificadas e usar as ferramentas certas são os ingredientes fundamentais dessa transformação.

No canal Vivendo de SaaS, Deivison Alves Elias e Ricardo discutem esses temas com base em experiência real de quem construiu e operou empresas de software no Brasil. Se você ainda não leu o livro, esse vídeo é um excelente ponto de partida. E se já leu, é uma ótima oportunidade de revisitar os conceitos e pensar em como aplicá-los na sua operação hoje. Leia também: Como funciona a máquina de vendas do eGestor.

Gostou do conteúdo? Descubra como construir negócios SaaS lucrativos com mentoria especializada.

Acessar o Vivendo de SaaS →