Você começa suas apresentações de vendas mostrando todas as funcionalidades do seu software? Se a resposta for sim, este pode ser o principal motivo pelo qual você tem dificuldade em fechar negócios ou em vender por um preço maior. Deivison, fundador do eGestor e criador do canal Vivendo de SaaS, explica por que vender software é contraintuitivo e como o método Spin Selling pode transformar completamente os seus resultados.
Venda simples x venda complexa: por que software é diferente
A primeira coisa que Deivison deixa claro é que vender software não é como vender um eletrodoméstico. Em uma venda simples, como a de um aspirador de pó, o vendedor pode mostrar as características do produto, falar o preço e o cliente pode comprar por impulso. Mesmo que a pessoa nunca use o produto depois, a venda aconteceu e o vendedor ficou satisfeito.
Com software como serviço, a lógica é completamente diferente. O cliente paga uma mensalidade ou anuidade e precisa continuar usando o produto mês após mês para que o negócio seja sustentável. Uma venda por impulso pode gerar cancelamento já no mês seguinte, e churn, o cancelamento de clientes, é descrito como "um câncer" que impede o crescimento da empresa. É como um balde furado: não adianta colocar água se ela continua escapando pelo fundo.
Por isso, a frase que Deivison quer que fique gravada é: software como serviço é relacionamento. E esse relacionamento começa já na venda.
O erro que mata a sua conversão: mostrar o produto cedo demais
O erro mais comum entre fundadores e vendedores de SaaS é chegar na reunião e começar a apresentar o software imediatamente, mostrando tela por tela, funcionalidade por funcionalidade. Deivison compartilha que já viveu isso na pele: amigos que desenvolveram um CRM foram até a empresa dele e ficaram uma hora demonstrando todas as funcionalidades. O resultado? Ele ficou entediado e desinteressado.
O problema de mostrar as funcionalidades logo de início é que o cliente não consegue enxergar valor. Ele vê um monte de recursos e pensa: "isso tá bom demais, deve ser caro." E quando ele pergunta o preço antes de entender o valor do produto, qualquer número que você disser vai parecer alto demais.
A regra de ouro é: não mostre as funcionalidades do seu software no início da conversa.
Venda consultiva: entender antes de oferecer
A alternativa para a apresentação de funcionalidades é a venda consultiva. Nesse modelo, o vendedor conduz uma conversa estruturada para entender a situação, os problemas e as consequências desses problemas para o cliente antes de apresentar qualquer solução.
No caso do eGestor, por exemplo, a abordagem inicial seria perguntar como a empresa funciona, como o cliente faz a gestão financeira hoje, quais são os desafios que ele enfrenta. O objetivo é deixar o cliente falar, fazendo-o revelar gradualmente os próprios problemas.
Quando o cliente fala sobre os problemas, ele começa a pensar nas consequências de não resolvê-los. E quanto mais ele pensa nas consequências, mais ele sente a dor de continuar naquela situação. É nesse ponto que o valor da solução fica evidente e o preço deixa de ser o foco da conversa.
O momento certo de falar em preço
Um dos aprendizados mais práticos que Deivison compartilha vem da análise de ligações reais da equipe de pré-vendedores do eGestor. Ao ouvir as gravações, ele percebeu um padrão: quando o pré-vendedor identificava uma necessidade do cliente e imediatamente apresentava a solução com todas as funcionalidades, a próxima pergunta era quase sempre "quanto custa?"
E quando o cliente pergunta o preço cedo demais, a venda está comprometida. Não há tempo suficiente para demonstrar valor. Qualquer número que você der vai ser comparado sem contexto, sem entendimento real do problema que aquele software resolve.
Quer viver de SaaS? Aprenda a criar e escalar produtos SaaS com quem já viveu isso na prática.
Conheça o Vivendo de SaaS →A venda consultiva correta direciona a conversa para que a pergunta de preço apareça no momento certo, depois que o cliente já entendeu profundamente o problema que ele tem e o quanto custa não resolvê-lo. Nesse momento, o preço do software parece muito mais razoável.
Como conduzir a conversa sem perder o controle
Deivison conta o caso de um vendedor que foi fazer uma visita presencial e perdeu a venda por falta de direcionamento. O cliente mencionou que precisava de um calendário específico, funcionalidade que o eGestor não tem. O vendedor, sem saber como conduzir, deixou o cliente aprofundar o próprio problema com o calendário. O resultado: o cliente focou naquilo que faltava e esqueceu tudo que o software oferecia.
Um vendedor experiente teria feito diferente: ao ouvir sobre o calendário, ele redirecionaria a conversa para os pontos fortes do produto. "Entendo que o senhor precisa de um calendário. Mas antes, como está o controle financeiro da sua empresa? E a emissão de notas fiscais eletrônicas?" O cliente confessaria as dores reais nessas áreas, o valor seria construído, e o calendário perderia importância diante dos outros problemas urgentes que precisam ser resolvidos.
O erro está em deixar o cliente conduzir a conversa. O vendedor precisa assumir o papel de guia, levando o cliente pelos pontos onde o software resolve problemas reais, não onde ele tem lacunas.
Por que novas funcionalidades não aumentam as vendas
Outro ponto central do conteúdo é um mito muito comum no mundo SaaS: a crença de que adicionar funcionalidades vai aumentar as vendas. Deivison é direto: desenvolver novas funcionalidades não aumenta as vendas. E ele afirma isso com base em anos de experiência com o eGestor.
O ciclo vicioso funciona assim: um potencial cliente pede uma funcionalidade que você não tem, você desenvolve para atender aquele cliente, mas logo outro cliente pede outra funcionalidade diferente. Você fica preso num loop infinito de desenvolvimento, sem ver crescimento real nas vendas.
O que realmente move as vendas é o discurso correto, que faz o cliente enxergar o valor do que você já tem. Um bom processo de vendas permite que você direcione a conversa para os pontos fortes do seu produto e minimize a relevância das lacunas, muitas vezes fazendo o cliente perceber que pode resolver de outra forma aquilo que faltava. Se quiser ir além e montar uma máquina de vendas previsível, vale entender como estruturar esse processo do zero.
Spin Selling: o livro que toda equipe de vendas SaaS deve ler
Para quem quer aprofundar esse modelo de venda consultiva, Deivison recomenda o livro Spin Selling. O nome vem das quatro categorias de perguntas que estruturam a venda consultiva:
- Situation (Situação): perguntas para entender o contexto atual do cliente
- Problem (Problema): perguntas para identificar os problemas que o cliente enfrenta
- Implication (Implicação): perguntas que fazem o cliente pensar nas consequências de não resolver o problema
- Need-Payoff (Necessidade de solução): perguntas que levam o cliente a articular o valor de resolver o problema
No eGestor, a leitura do Spin Selling é obrigatória para toda a equipe de pré-vendedores e vendedores. Após um mês na empresa, cada novo integrante precisa apresentar as teorias do livro para a equipe. E a recomendação de Deivison é ainda mais específica: leia o livro, aplique nas suas vendas por três ou quatro meses, e depois leia de novo. A segunda leitura, com a experiência acumulada, vai revelar coisas que você não percebeu na primeira vez. Vale também entender o que mudou no Spin Selling nos últimos anos e como o método evoluiu para o contexto atual de vendas SaaS.
Como aplicar isso na prática no seu SaaS
Se você quer começar a aplicar esses princípios hoje, aqui estão os pontos práticos tirados diretamente do conteúdo:
- Nunca abra uma reunião mostrando o produto. Comece fazendo perguntas sobre a situação atual do cliente.
- Deixe o cliente falar. Quanto mais ele fala sobre os problemas, mais ele sente a dor de não resolvê-los.
- Conduza a conversa ativamente. Você é o vendedor, você conhece o produto e sabe onde ele resolve problemas reais. Não deixe o cliente desviar para os pontos onde você tem lacunas.
- Só fale de funcionalidades e preço depois de construir valor. Quando o cliente já entende profundamente o problema que ele tem, o preço da solução parece muito mais justo.
- Grave e ouça suas ligações de vendas. A análise das gravações é uma das práticas mais poderosas para identificar onde o processo está quebrando.
- Leia o Spin Selling. É o livro de referência para entender a estrutura da venda consultiva aplicada a produtos e serviços complexos.
Venda bem feita reduz churn e aumenta ticket médio
Por fim, Deivison reforça que um processo de venda bem executado tem dois efeitos diretos sobre a saúde do negócio SaaS. Primeiro, ele reduz o churn, porque o cliente entrou com expectativas alinhadas ao que o produto entrega. Segundo, ele permite vender mais caro, porque o preço é percebido no contexto do valor que o software gera para o negócio do cliente, não como um custo isolado.
Vender software não é sobre mostrar funcionalidades. É sobre ajudar o cliente a entender o problema que ele tem e a ver claramente o quanto custa continuar sem resolver aquele problema. Quando você chega nesse ponto da conversa, o preço do seu software deixa de ser um obstáculo e se torna uma decisão óbvia. Para quem quer acelerar ainda mais os resultados, vale conhecer alguns hacks de vendas para SaaS que complementam esse processo.
Gostou do conteúdo? Descubra como construir negócios SaaS lucrativos com mentoria especializada.
Acessar o Vivendo de SaaS →